“Mãe, quantas montanhas são daqui até a (praia) Baleia?”. “Quatro montanhas Fê” – eu respondo. “Mãe, a gente tem hoje o dia inteiro, dai dorme, mais amanhã o dia inteiro e vamos embora a noite, é isso?”. “Isso mesmo. Temos mais 2 dias”.

Tem quem conte números. Tem quem conte palavras. Tem quem conte coisas. Tem quem conte histórias. Na matemática ou no português, na escola aprende-se a contar. No cotidiano, fazemos igual. Muitas vezes sem nem nos darmos conta de que a diferença do que um fala para o que o outro fala é apenas uma unidade de medida.

A palavra deriva de computus em latim – calculo, conta, suposição, estimar. Estima. Quem nunca estimou quantas montanhas, ventos, galhos ou pedrinhas existem num olhar?. João e Maria fizeram uma suposição do caminho de volta pra casa e foram marcando com migalhas de pão, segundo a estimativa. Quantas migalhas será que tinham da floresta até a casa deles? Unidade de medida que calcula o caminho e também nos conta uma história. Que ganha encanto. Que nos dá a possibilidade de imaginar. De ampliar o olhar que hoje já é tão lógico e milimétrico.

Contar é um fenômeno exclusivamente humano. Mas dizem que os animais também contam. Assim, como as quatro montanhas do Felipe. É um número sem contagem. Uma ideia relativa de correspondência. Abstração dos números. Na matemática isso se chama correspondência biunívoca. Nunca estudei na escola, mas a gente vive dela e nem sabe.

Um provérbio português diz que quem conta um conto aumenta um ponto. Porque julga não existir um jeito certo de contar histórias e que, com o passar dos anos, as histórias ganham particularidades de sua própria época. E os irmãos Grimm, responsáveis por coletar mais de 100 contos populares na Alemanha, lá por volta de 1880, foram fiéis a seus ouvidos. A gente sabe também que quem escuta um conto passa a viver com ele no coração.

Estudo e teoria é o que não falta sobre a importância das histórias e contos de fadas na infância. E pudera. Os contos falam de forma acessível o que existe dentro da criança. “Porque o mundo real de uma criança é interno e não externo como acham os adultos”, escreve o austríaco e um dos maiores psicólogos infantis, Bruno Bettelheim, no livro A Psicanalise dos Contos de Fadas. “Os contos, já em seus títulos deixam, claro que se trata de um território fora do tempo e do espaço do adulto”.

E que delicia a minha, poder agora olhar as montanhas e pensar que logo ali tem outra praia. Saber que para chegar lá não existem 35km e sim 4 montanhas. Existe um conto neste caminho do mar. E ele não é nem matemático e nem literário. Saiu do universo imaginário do Felipe. Daqueles que a gente anota no caderninho de quando são pequenos. Ou publica no Facebook. Porque contos são memórias. E contam mais sobre a gente do que a gente sobre a história. Cheios de coragem. Porque ele traz o coração dentro dele. Cor – coroa – coragem – agir com a cor – agir com o coração. Existe um conto neste caminho do mar.