O título da coluna foi manchete do jornal El País, numa quarta-feira, começo do mês. Passou dois, três dias na minha cabeça enquanto eu pensava qual seria a coluna de segunda-feira. Tem muito tema para ser abordado. A gente podia falar de birra, educação, os 30% da população infantil obesa no Brasil, do consumismo, da droga da obediência, o TDHA, do sexo precoce. Podia falar também daqui de casa. Da bronca que dei nos meninos porque ficaram lutando quando pedi pra fazerem a lição de casa; do Lucas, que não coloca verdura no prato por livre e espontânea vontade; do Felipe, que às vezes se joga no chão e chora só porque é o caçula; ou do Pedro, que está um típico pré-adolescente.

 

Mas daí fiquei pensando que, perto de tamanha cena chocante, nada poderia ser mais importante do que ensinar a meus filhos o que é ser ser humano. Porque aquela criança foi um escancaro da humanidade. Ali nada era número, nada era estatística. Era como a gente. E falar para os meus filhos sobre o sentido da gente existir, de estar aqui, vivendo todos juntos, foi maior. Porque eu posso ensinar tudo isso a eles proporcionando vivências e experiências na vida que criem memórias afetivas e positivas. Que geram lembranças. E as lembranças deles serão tão boas que eles vão entender por que a gente nasce, vive e morre. E vão entender que cada um de nós tem um porquê de existir e viver em sociedade. Meus filhos estudam em boas escolas, viajam pra vários lugares, têm família emocionalmente estruturada, têm diversidade na mesa todo santo dia, têm amigos, têm histórias pra contar, têm risadas pra dar. E eles só têm 11, 9 e 7 anos. Imagina quando crescerem. Quantas mais histórias terão. Quantas mais lembranças vão poder carregar. Quanta vida.

 

E, do outro lado da nossa vida aqui, tem pais e mães se lançando ao mar como último suspiro. De esperança. Numa atitude que esgarça pra gente o tamanho do desespero humano. E também o tamanho da coragem. Coragem de mudança, de viver de forma mais digna. Mia Couto, em um de seus livros, tem uma frase linda que diz que o mar é um infinito sem fundura. E, nessa fundura, refugiados enxergam a possibilidade de existir um horizonte. E a manchete do El País continua na minha cabeça. Dias e dias depois. Continuo engasgada. Mesmo. Me sentindo uma medíocre que não pega um avião e vai até lá ajudar essas pessoas a sair do mar. Estender a mão e enrolar uma toalha deve ser gigantesco. Poético ou ridículo, não sei. Utopia? Sei lá, também. Mas o que somos nós como sociedade? O que somos nós como seres humanos? O que queremos dar como futuro de um mundo, de um planeta?

 

O pai do garotinho de dois anos contou numa entrevista triste e agoniante que o filho escapou da mão dele. Escapou. Em alto-mar. Das nossas, está escapando a vida. A capacidade de viver. Viver cheios de memórias, de lembranças e sorrisos. Porque somos feitos de muitas pessoas. Somos todos um. Somos refugiados, brancos, negros, amarelos, índios, orientais, asiáticos, albinos, africanos, gays, muçulmanos, hindus, judeus, católicos. Somos o título deste texto. É o que nos torna humanos. O assunto é tão nosso quanto a falta d’água na cidade. Talvez começar olhando ao nosso redor, em como vivemos juntos, em como ajudamos o vizinho ou o desconhecido que precisa de ajuda, possa ser um grande começo pra ajudarmos os que atravessam o mar sem saber aonde vão chegar.

 

E, se a gente quer deixar algum legado, algum ensinamento aos nossos filhos, certamente a forma de lidar com o outro, com as diferenças e semelhanças, deveria ser um deles. De novo a frase de Gandhi que nos diz que a mudança que queremos ver no outro começa em nós mesmo. E aqui podemos ser seres humanos em inglês. Podemos ser human beings. Pra termos a chance de ainda fazermos sentidos em ser, assim como a palavra ainda em construção.