Um pouco antes de acabarem as aulas participei de uma palestra, uma conversa, na verdade, entre mães e pais de diferentes escolas sobre o tema “drogas e bebidas”. 90% dos que estavam ali têm filhos no ensino médio e vivem o dilema das festas chamadas de “Cervejadas”, onde alunos do 3o ano organizam para arrecadar dinheiro para a viagem de formatura. Entre alguns dos problemas está que a venda, e a festa em si, é organizada para adolescentes de 1oe 2o anos do ensino médio. Ou seja, todos menores de idade assim como os próprios organizadores. Mas rola bebida open bar, rola shot logo na entrada da festa. Rola o que estiver disponível à adolescência.

E, claro, os pais se preocupam. E, como não era novidade, descobriram na conversa realizada no Escola Vera Cruz, que não estão sozinhos nesse breu que acompanha a relação pais e filhos. A conversa foi puxada pela mãe e socióloga Helena, que tem filho no Equipe e se viu diante da ilustre frase “só você acha isso” ou “só você não deixa”. Incomodada com o suposto papel de má, resolveu fazer o que não se faz mais quando os filhos crescem: falar com as outras mães. Helena descobriu que muitas também não deixavam e muitas também achavam o que ela achava. As conversas formaram um grupo de WhatsApp que formou um grupo de encontros e conversas/ trocas sobre os assuntos que permeiam a adolescência. “Eles se fortalecem em rede. A gente também pode se fortalecer”, enfatizou Helena em nossa conversa. E com toda razão porque os grupos, as trocas, as conversas precisam estreitar laços para se fortalecerem e se sustentarem.

Um segundo passo foi levar o assunto à direção da escola. Apesar de muitas escolas se negarem a se responsabilizar pelo assunto, “afinal as festas não acontecem aqui dentro”, a organização e as vendas de convites acontecem. Portanto, as escolas têm, sim, um papel importante nesse cenário. Debater o assunto, questionar os alunos sobre a problemática que envolve vender convites de festa com bebidas alcoólicas liberadas é assunto e responsabilidade de todos. De pais, mães, adolescentes e jovens e escola.

Existe uma necessidade fundamental no papel da escola que é trazer pra dentro assuntos que acontecem, teoricamente, da porta pra fora. O assunto é coletivo, e não individual de cada família. Ter esse olhar para as questões da adolescência é fundamental para conseguir ajudar e trazer esse adolescente pra perto. Com esse olhar e cuidado, foi que o grupo de mães que se formou no Equipe começou a chamar os adolescentes a participarem de conversas sobre o tema. “A ideia é problematizar uma questão que não é dada como problema. Questioná-los sobre a postura e a responsabilidade diante desses assuntos”, explicou Helena.

“É muito interessante porque nas conversas eles reconhecem que algumas coisas não fazem sentido e que deveriam ter outros propósitos, mas muitas vezes não sabem como”, continua. Mas o que chama a atenção é a constatação de que muitos bebem e usam drogas, muitas vezes, porque não têm nada mais interessante a fazer. Uou! E, sim, esse foi um ponto levantado pelos próprios adolescentes em conversas com pais e escola. Ou seja, é fato. Cabe a nós, pais, querer lidar com ele ou não.

Festas, bebidas e drogas sempre permearam a adolescência e era assim também na nossa época. Também bebíamos antes dos 18 anos e frequentávamos festas do colegial. Tem a festa pela festa. Pela diversão. Mas tem a festa que esconde um sintoma de uma solidão profunda que essa geração vive. Está aí o cerne do problema e pra onde deveríamos olhar com mais cuidado e atenção. Bebidas e drogas, muitas vezes, são válvulas de escape para uma tristeza profunda que eles sentem. O vazio que dá depressão.

Recentemente vivemos a “polêmica” do jogo da Baleia Azul. Para quem não conhece, vale a pena assistir a um vídeo do youtuber Felipe Neto em que ele fala sobre a depressão. Busquem dados também dos órgãos médicos. É uma das principais doenças e ela tem crescido. Entender as causas é a grande chave. Entender o que causa esse grande tédio pela vida, essa desmotivação toda. Por que esse vazio?

Fico com a sensação que damos hoje às crianças uma infância muito preenchida e suprida emocionalmente e materialmente. Eles mal desejam e já têm. Eles mal sentem e a gente já acolhe, já transforma o sentimento. Não dá tempo de entender o sentimento e lidar com ele. Não dá tempo de desejar e buscar alternativas pra ir atrás do que se deseja. Logo alguém compra, logo alguém dá. Logo alguém resolve. E o que sobra aos adolescentes e jovens a não ser o vazio? Vazio da não conquista, vazio do não desejo, vazio das não escolhas, vazio de sentimentos.

Deveríamos falar com eles sobre drogas e bebidas como sintoma de um problema muito maior. É como tratar uma doença. O remédio alivia o sintoma, não cura doença. As conversas precisam chegar no coração dessa geração, nos sentimentos. Para que a gente possa despertar neles aquela ânsia de viver que só a juventude tem. Aquela vontade de transformar o mundo. Sabe a música da Elis Regina, Como Nossos Pais? Tem um pedacinho que diz assim: “Viver é melhor que sonhar, Eu sei que o amor é uma coisa boa”. Que o amor possa transformar e que esses jovens possam sonhar para poder viver. Porque a vida precisa de sonho pra mover, pra ter impulso, pra ter desejo.