Ela sempre vem pelo tempo. Um tempo já não tão delicado como outros.
Porque é tempo que passa e vai deixando sinais. Do tempo que não deu tempo. Do que não foi cumprido. Das expectativas que criamos e não damos conta. Retrospectiva do ano é uma listinha dura e cruel do que a gente não deu conta. Não são como os melhores momentos do ano que passam na Rede Globo.

Quando eu era criança, gostava de ver. Minha família é do interior e no final da rua da casa da minha avó tinha o Votuporanga Clube. Era “o” clube da cidade. Noite de réveillon meus tios iam pra lá. Eram férias. Dia de dormir na casa dos meus avós. O máximo que podíamos fazer era ficar acordado assistindo a retrospectiva do ano. Os melhores momentos.

Cresci. O tempo cresceu comigo também. Percebi que as pessoas faziam listinhas. Listinhas de desejos e planos pro ano seguinte. Sou a menina do caderno. Ando com eles pra cima e pra baixo. Na bolsa, são três. Um pra cada tempo. Um pra cada conto.

Não sou a menina do tempo. Não conto o tempo. Não uso relógio. Tô sempre atrasada. Prefiro o tempo sem pressa. Não sou amiga do tempo que passa. Dos anos. Não pela estética. Mas pelo que “resta” da vida. Sempre acho curto. Acho pouco. Sou daquelas que quer ser a última a sair da festa.

Nasci sagitariana e certeza que essa força é das grandes. Porque as expectativas nunca foram meu forte. É cruel me pedir pra escrever o futuro. O que eu quero. O que eu desejo. Não costumo querer. Não costumo desejar. Costumo ir. Meio barquinho no mar. Á deriva do tempo. Á espera do vento pra me dar direção. Essa sou eu. Daquelas que aproveita a pedra no caminho para construir outro caminho. Nunca seguir em linha reta.

Há quem diga por linhas tortas. Eu não. Diria que sou corajosa o bastante para andar por novos caminhos. Pra deixar o barco ir. Sem gastar toda minha força segurando a vela. A vida é que faz planos pra gente. Não sou eu quem vai planejá-la. Porque a vida não se tica. Não tem do´s and dont´s. Ou pelo menos, eu acho que não pode ter. Prefiro continuar com minha flecha apontada pro céu. Pro infinito. Pro que me traz uma infinita possibilidade de caminhos. De constelações.

Sem retrospectivas. Sem os melhores momentos do ano. Sem listinhas pra 2018. Sem angústias e expectativas. Porque a possibilidade de vislumbrar o horizonte sem saber o que te espera do outro lado do oceano é a melhor das expectativas. Desse tempo eu me recarrego.

Que 2018 seja suave