Final de ano mudamos de casa. Agora são outros passarinhos que cantam na janela. O bairro tem outros sons, outros silêncios. A vida também ganhou silêncios. Os caminhos continuam longos. Como aqueles do final do ano. Mas agora pego outras ruas, passo por outros bairros, vejo outras pessoas.
Desde criança me intriga passar na frente de presídio. Passo na frente de dois agora. Quando está trânsito consigo observar a fila. Quem está nela, o que tem nas mãos, se parece cansada, o que ela faz ali, quem está com ela…fico observando e pensando nesses caminhos tão diferentes. Hoje tinha uma menina. Linda! Saltitante. De saia xadrez azul e camiseta branca. Linda, linda. Devia ser filha de alguém que estava ali. Ou neta. Estava na fila de visitas para entrar e eu pensei: como podem existir caminhos tão diferentes numa mesma vida? O que faz cada um ter sua própria história e caminhos tão distintos? No espiritismo, fala-se de evolução do espírito. Almas que já encarnaram muitas vezes e evoluíram, têm mais sorte na vida terrena. Mas, e para os que não acreditam nos campos espirituais, qual explicação? Talvez a vida. Simplesmente o curso da vida.

Mas quando o olhar faz a curva, eu vejo uma menina linda com uma história de família nem tão linda assim. Mas que pelo saltitar parecia não importar. E me lembro de um exercício que fiz recentemente numa formação que pedia para que nós descrevêssemos o nosso lar/ família e o lar/ família de uma criança que tinha sido destituída de seus pais. O que tem na nossa família que na dela não tem? O que falta na dela que não falta na nossa? Imediatamente a gente pensa em estrutura. Social, emocional, financeira. Educação. Saúde. Dinheiro. Pensamos, automaticamente, que algo deve ter de errado naquela família para que eles tenham perdido a guarda de um filho. E o que será que essa família tem e a nossa não? Coragem. Foi a primeira palavra que me veio. Muita coragem. Fé. Fé de que a vida vai ser melhor.

E o que nós duas temos em comum? Amor. Só pode ser amor. Amor de pais para filhos e de filhos para pais. Aquela menina na fila de visitas do presidio tem muito amor por quem está lá dentro a espera. Independente do erro que cometeu. Vale mais um coração cheio de abraço do que um coração vazio. O mesmo amor saltitante da menina é o mesmo amor dos meus e dos seus filhos. Tanto faz onde estão e quem são os pais desses filhos. Amor é amor. Isso não se discute.

“Novo tempo…pra sobreviver…pra que nossa esperança seja mais que a vingança, seja sempre um caminho que se deixa de herança…”. Que esse amor saltitante possa ser deixado de herança. Pelos caminhos. Desse novo tempo, dessa mesma vida.