Acontece quando se é criança. Quando classe social, cor, estado ou raça não fazem diferença. Quando a vontade de brincar e estar juntos é tão mais forte que a diferença não faz diferença. Nesse caso aqui, ela aproxima.

 

Dia de semana, dia de escola, e fui premiada a poder acompanhar a classe do meu filho, que está no 5o ano, num passeio. A visita seria às crianças da comunidade Horizonte Azul. Há dois meses, eles estiveram na escola para um dia de atividades esportivas. Eram os Jogos Olímpicos. Os times eram formados por crianças da zona sul + crianças da periferia. Mais precisamente da comunidade Horizonte Azul. Alguém sabe onde fica? Pega a Washington Luiz, segue toda vida, passa M’Boi Mirim, passa Jardim Angela e daí você chega. Periferia.

 

De onde saímos foi 1h30 de ônibus escolar. Muita euforia dentro do ônibus. E muita euforia também no portão do lado de lá. Era um momento de reencontrar os amigos que eles fizeram, e retribuir a visita. Agora na “casa” deles. As crianças todas esperando no portão. Se cumprimentaram um a um. Com beijos e abraços. Com saudades. Com carinho. Os de lá queriam mostrar sua escola, e os daqui queriam conhecer.

 

Os meninos se juntam em volta de uma mesa de ping-pong de concreto. Ela é pintada de verde e tem a linha branca ao meio que divide os lados da quadra. Mas não tem rede, e uma das crianças faz essa observação. “Vocês não têm rede pra jogar?”. Um deles diz que não, que eles jogam assim mesmo. E o menino que fez a pergunta diz “então pega as raquetes pra gente jogar”. E brincam. E quem observa percebe que a diferença não faz diferença, porque o estar junto é mais importante, e precioso, do que o ter.

 

Levamos farinha, açúcar, ovos, manteiga, leite e especiarias pra fazer biscoitos de Natal. Tudo pronto e começamos a chamar as crianças pra lavar as mãos e sentar às mesas. Já estavam todos misturados e juntos. Não precisou de professor algum para fazer integração. Juntos, fazendo biscoitos, eles beliscavam a massa crua. Cortavam com forminhas de Natal e, o melhor de tudo, conversavam. Riam. Curtiam. Um garoto contava sobre a casa da patroa da sua avó. “Ela fala que a casa tem dois andares e que é muito chique. Que tem televisão em todos os quartos”. As crianças arregalam os olhos com a mesma surpresa de imensidão de mundo que o garoto. Mas a casa em que a avó dele trabalha pode, muito bem, ser a de qualquer um dos nossos alunos de cá. Tranquilamente somos a patroa de que a avó dele fala. Mas para as crianças, da zona sul e da periferia, a casa era grande e chique igual. Porque a diferença pode ser a mesma quando se é criança.

 

Levamos o almoço também. E, enquanto as crianças mostravam a horta deles aos nossos, fomos preparar as mesas. Já estavam todos esfomeados. Comeram o que tinha, e nas condições que não são as deles diariamente. Mas são de seus amigos. E, de novo, não fez diferença alguma. Se o prato e os talheres eram mais simples, mais gastos, que diferença faz quando se está com fome e tem comida pra comer? Nenhuma.

 

Mais uma vez saíram pra brincar. Brincaram do que criança gosta de brincar. Subir em árvore, bola, ping-pong, pega-pega. As meninas já gostam mais de conversar. Saber quem gosta de quem, quem acha fulano bonito. Ah! E como elas mexem nos cabelos umas das outras… É uma admiração por cada detalhe. E a menina de cabelo liso e macio quer ver, e tocar, no cabelo crespo da amiga. “Seu cabelo é irado”, uma delas diz.

 

Só que a gente cresce, e, por alguma razão, o encanto com as diferenças se perde. E muitos se tornam adultos preconceituosos e sem alma. Parece que trancam o coração em algum lugar da memória que não acessam mais. Ficam duros, secos, objetivos. Não sabem mais que a diferença não faz diferença. Que diferenças aproximam mundos – e almas. Que diferenças nos tornam humanos e engrandecem o sentido da vida. Do existir. Do ser grato e poder retribuir. É a tal da gratidão.

 

A sementinha nasce com a gente. Tá aí na infância da forma mais pura, bela e genuína. Porque o amor é genuíno. E cabe a nós, adultos, regá-la todo dia. Saímos todos com vontade de mais encontros. De mais diferenças no nosso dia a dia. Porque as diferenças aproximam. Aproximam a possibilidade de igualdade. Quando vamos nos ver de novo? <3