Cada vez mais cedo crianças saem de casa sem os pais para acampamentos ou intercâmbios culturais nas férias. Aprender inglês em Hamptons, cozinhar em Itú ou treinar futebol no Real Madrid são passaportes garantidos para a diversão. Foi-se o tempo em que férias eram sinônimo de casa de vó e primos. Não que isso não aconteça, óbvio. Mas está longe de ser a única opção pra essa geração de crianças que nasceram com o pezinho fora do berço.

 

Eles mal nascem e já abrem os olhos. Depois de algumas semanas já estão sorrindo e são capazes de falar várias outras palavras antes mesmo de mamãe. E não são robôs ou máquinas programadas. São bebês de tempos atuais. Superestimulados já na barriga e quando saem dela. Crescem olhando o mundo pela janela, e parece que essa janela vai ganhando dimensões além das fronteiras conforme o tempo passa.

 

Dormir fora de casa ou viajar sem os pais não é coisa de criança mais velha. Hoje, com 5 e 6 anos elas já estão se despedindo na porta do ônibus (ou do avião) para fazer viagens com escola, clube e até colegas que mal conhecem. Rumo a um lugar cujo objetivo principal é brincar e se divertir. E as opções se diversificaram muito. Além dos acampamentos por perto, tem crianças mais ousadas, que vão acampar em Paris, fazer summer camp nos Estados Unidos, ou treinar futebol com jogadores de times internacionais. Tem de tudo! O cardápio é amplo e a demanda está ficando exigente. As crianças sabem que existem mais possibilidades do que o basicão. Estão antenadas. Querem sair pra ver o mundo. E são capazes de curtir Paris e Picinguaba na mesma proporção. O que é muito bacana e importante. Porque só amplia repertório e exercita a pequena independência.

 

Sair de casa, do ambiente seguro, do quentinho do teu quarto e se arriscar ainda tão pequeno é corajoso. Paris ou Picinguaba não tem colo de mãe. Precisa aprender a resolver conflito; dizer o que quer e o que não quer; a participar do grupo; manter as coisas minimamente organizadas; descobrir onde foi parar a meia sem gritar “mãe, cadê minha meia? ”; a comer o que tem. É preciso seguir regras novas. Um pequeno exercício de independência.

 

Agora é importante dizer que esse fenômeno está diretamente ligado aos tempos modernos, de pais que trabalham full time e avós que têm uma vida superativa. Por consequência se estabelece uma nova dinâmica e rotina familiar. Não é mais possível passar um mês com os filhos viajando ou curtindo a fazenda no interior. Então, vão as crianças e ficam os pais. No frigir dos ovos, resolvem-se as férias de todos na casa.

 

E tem hora certa para o filho viajar sozinho? Identificar a hora correta é tarefa árdua. A pedagoga Celia Tilkian diz que “depende muito da criança e de como ela é educada. Algumas amadurecerão mais cedo, pois foram menos protegidas ou são segundos ou terceiros filhos… enfim, depende da maturidade da criança”. E essa maturidade não está relativamente ligada à idade, porque normalmente são os mais velhos (ou seja, o primeiro filho) que carregam o maior peso e normalmente demoram mais para desagarrar da barra dos pais. Uma dica é ir aos poucos (como tudo nesta vida). “Gradativamente você vai aumentando o tempo de permanência longe de casa e sentindo qual a tolerância da criança”, diz a pedagoga. Mas fica um aviso: até as crianças mais bem resolvidas podem estranhar se o tempo for muito longo fora de casa e num ambiente novo. A experiência de viajar sem os pais é superbacana, eles se divertem muito, mas não abuse com o tempo. Ele ainda é muito relativo e instável para a criança. Lembre que a corda deve ser solta vide o tamanho da liberdade que queremos dar e da maturidade que é possível ter. Crianças são pequenas. Precisam de pequenos desafios para realizar grandes conquistas. São as pequenas independências.