Tem casal indo pra Miami ter filho. Pra ter cidadania americana. Pra poder ter o famoso Green Card. O passaporte da alegria. São escolhas de vida, escolhas de futuro. A gente deve respeitar. Respeito. Mas impossível não questionar. Questionar o porquê. O que leva uma pessoa a achar que um filho americano é a salvação de sua condição de vida? Achar que isso garante a ela um futuro estável economicamente e uma boa aposentadoria? Claro que não vamos negar os benefícios de uma cidadania americana. Inegável, também. Mas desistir do seu próprio país? Será que o motivo é forte o suficiente? Cada um cada um. Porém, ainda tendo a dizer que não. Mas parece que Miami é o desejo de 7 em cada 10 brasileiros com acesso às terras norte-americanas. E essa escolha levanta questões que devem, e precisam, ser discutidas.

 

Numa entrevista recente com um dos milhões de refugiados que estão deixando a Síria, um menino na sua adolescência falou às câmeras que sair do país dele não era uma escolha própria, mas sim uma consequência da guerra. Traduzindo, eles só estavam indo embora porque a guerra não acabava. Porque, por livre e espontânea vontade, eles não sairiam de lá. Mesmo tendo a Europa ali na frente em condições econômicas muito melhores. Mas aqui não é a Síria e nem estamos migrando pra Europa. As escolhas (e as condições) são outras (vamos combinar que mais favoráveis). Vou te contar: filho americano não é garantia de passaporte da alegria. Existem zilhões, zilhões mesmo, de poréns e portantos pra que isso dê certo.

 

Mas já estão montando esquema por lá. Em Miami. Existe serviço especializado pra brasileira ter bebê de forma “profissa”. Isso quer dizer ter acompanhamento com médico particular, o que o sistema americano não te dá, porque atende quem estiver disponível. O serviço garante também a cesárea, caso seja um desejo da mãe. Porque no sistema americano, o mesmo de que essa pessoa quer poder se beneficiar depois, não disponibiliza cesáreas pra quem quer. Não é o desejo que conta, e sim as condições médicas. Mas esse é o serviço que se vende aos brasileiros que sonham com um futuro melhor. “Ser mamãe em Miami” chama. Fofo.

 

Em matéria recente no Globo online, médico e pediatra contam por que lançaram o serviço, e divulgam seus pacotes. Veja bem como pode ser interessante. “O natural sai por US$ 9.840 (cerca de R$ 37.800); a cesárea, US$ 11.390 (R$ 43.700); e o múltiplo (gêmeos ou mais), US$ 14.730 (R$ 56.600)”, divulga a matéria. Mas vamos ser justos. Nada de culpar o serviço desses profissionais. Ele só existe porque existe a demanda.

 

E aí que está o umbigo da barriga. E é nesse mesmo umbigo que a gente encontra tanta falta de coletividade e comunidade neste país em que escolhemos pra viver e lutamos, dia a dia, arduamente, pra educar as crianças. Porque enquanto pensarmos apenas em “nossa família”, continuaremos a pensar em nossos problemas e nossas soluções. Mas, quando vivemos num mundo globalizado, soluções e problemas são de todos. E é fora desse umbigo que deveríamos pensar pra falar sobre futuro de filho. Acredito ser mais promissor educar por melhorias do que arrumar as malas e ir embora. Ou o último que sair apaga a luz?