Pais ameaçam deixar filho na pracinha. Pais ameaçam deixar filho em supermercado. Mãe ameaça deixar filho em casa sozinho. Pais ameaçam deixar filho no clube. Pais ameaçam deixar filho no vestiário da natação. Pais ameaçam! Ameaçam a todo tempo porque perderam o poder sobre essas pequenas criaturas que são seus filhos.

“Rodrigo, a mamãe não vai mais te trazer aqui”. “Rodrigo, a mamãe vai embora e vai te deixar” – isso depois de uns 10 minutos rodando a padaria atrás do moleque que não tinha mais de 3 anos e, obviamente, não a obedecia. “Rodrigo, vem. Você não quer uma língua de gato? Vamos comprar”. A mãe apelou – notoriamente.

“Gustavo, seu pai está ali no restaurante esperando. Você precisa vir” – nisso, o Gustavo entra embaixo de uma arara de roupas na qual estou vendo uma peça. “Gustavo, eu tô indo e você vai ficar aqui sozinho com a moça. ” “Gustavo, vamos. Eu te dou uma bala.” Pensar em pegar o Gustavo pelo braço e se fazer autoridade nunca, né? Deixa ele mandar, que eu ameaço e, se não der certo, eu compro um doce.

“Gabi, por favor, levanta! O papai precisa pegar seu irmão” – Gabriela está sentada no chuveiro do clube. “Gabi, o papai está atrasado e você não está me obedecendo, e seu irmão vai ficar na escola sozinho por sua culpa” – vejam: a culpa é da criança, e não do pai. Que isso fique bem claro. “Então, o papai vai embora e você fica aí sozinha no clube” – fecha o pai com chave de ouro.

Pais sem autoridade vivem um dia a dia estafante com seus filhos. E filhos vivem um dia a dia estafante sob a falta de autoridade e condução dos pais. A famosa bola de neve onde crianças pedem, suplicam, aos pais firmeza e direção. E pais, sem controle algum, ameaçam seus filhos constantemente para conseguir que eles façam o que é preciso. Precisam de uma moeda de troca e começa a ingestão de doces e guloseimas nas crianças. Sacrificante para ambas as partes, já que o fazer torna-se penoso e doloroso. Os pais passam a ter medo dos ataques do filho em lugares públicos, e acabam obedecendo aos “pedidos” dos filhos. A criança sente a falta de controle e insegurança dos pais, e deita e rola, literalmente. Os pais perdem mais controle e, pra não serem julgados em público, cedem aos pedidos e restabelecem o silêncio (temporariamente). Obviamente nada disso funciona, e vão se formando pequenos tiranos em sociedade. E os programas de supernanny continuam a fazer muito sucesso. As filas de famílias candidatas só crescem. Alguém precisa ajudar a recuperar o bastão.

Porque é através da figura do adulto, da autoridade, que a criança receberá conceitos de certo e errado, e de relação em sociedade com o mundo. Sem limites, ela expande demais e não dá conta de controlar os impulsos sozinha. Porque ninguém ensinou onde tem que parar. Ninguém disse “aqui não pode mais”. Mas o medo é tão grande que os pais paralisam. Medo mobiliza, e não imobiliza. A mudança de comportamento virá na proporção da sua coragem.