Olho no olho

Por Carolina Delboni

17/04/2017, 09h35

   

Vale muito mais do que “olho por olho, dente por dente”.

Na escritura sagrada de Jesus quando ele escuta a frase acima, pede que ao invés de retribuir com vingança que as pessoas ofereçam a outra face. “A quem te esbofetear a face direita, ofereça a outra”, diz. Jesus queria dizer que se alguém te convidasse para briga (era através de um tapa que o embate era chamado), para não revidar com outro tapa como quem aceita o convite. Mas sim oferecesse a outra face afim de terminar por ali mesmo o que nem deveria ter começado.

Agora corre a história da humanidade pra frente. Chegamos em 2017. Faz a simbologia da cena acima de A.D. e imagina: ambiente escolar, crianças, brincadeiras, acertos e desacertos. Deu briga. Duas crianças envolvidas. Uma apanha e a outra bate. A cena se repete dia seguinte. E se repete novamente. Semana que vem e depois e depois. Porque sempre tem uma que bate e a outra que apanha. Toda escola tem, toda classe tem, toda infância tem. Porque assim é a vida. Eugenio Mussak, consultor de desenvolvimento humano, que fala que viver é lidar com sentimentos quase sempre bons, muitas vezes nem tanto. Nem tanto…

Mas e agora, como fazer? Ensinar o “olho por olho, dente por dente” ou ensinar que não é batendo que se resolve? Como os pais devem se portar? Sim, se portar, porque pais são os primeiros que precisam aprender a lidar com a situação. Seja de ter um filho que apanha ou de ter o filho que bate. Bater fisicamente ou verbalmente. Apanhar fisicamente ou verbalmente. Para ambos não é fácil.

Antes de mais nada, é preciso aprender sobre empatia. A palavrinha está na moda, mas muita gente não sabe nem o que significa. Vem do grego empatheia – paixão, estado de emoção. Formado por “em” + “pathos” = emoção, sentimento. A ideia é estar “dentro” do sentimento do outro. Se colocar no lugar do outro e tentar entender o que é pra um pai ou uma mãe ter um filho que bate ou ter um filho que apanha. Isso não significa sair pedindo desculpas um ao outro como muitos fazem. Significa tentar imaginar o que o outro está passando e olhar a situação com mais coração e menos razão.

Uma criança que não é educada com – e pela – violência não vai agir com tal. A não ser que algo muito errado esteja acontecendo com ela e os sentimentos estejam tão sufocados que só sobrou a agressividade para externalizar. E uma criança que é mais reservada, mais pacifica, não vai retribuir com violência. Ela, normalmente, nem sabe como é isso. Mandar essa criança bater de volta é o mesmo que violar o que ela tem de mais puro e sagrado dentro dela: seus princípios, seus valores. Claro que os pais não vão ensinar a bater, mas como então ensinar essa criança a se defender. Uma precisa entender que bater não resolve e outra precisa entender que não pode abaixar a cabeça pra tudo. Tem que se posicionar.

Certamente você que está lendo este texto já passou por uma das situações ou tem alguém próximo que já. Primeira coisa a fazer, acalmar seu coração pra depois conseguir acalmar do seu filho. Segundo passo, conversar com a professora. Vou enfatizar: com a professora. Não é com os pais da outra criança que você vai falar. A mediadora da situação está em classe e foi a ela que você confiou seu filho enquanto ele está na escola. Precisa confiar para educar. Então é com ela que vocês vão falar. Adulto consegue olhar a situação dos dois lados. Sem julgamentos, precisa fazer ponderações e ajudar ambos. Porque ambos precisam de ajuda: quem bate e quem apanha.

Ajudar é dar a mão, chegar bem perto. Do outro. Que não precisa ser teu amigo, mas não precisa ter raiva. Não tem aquele dizer “a raiva cega”? Pois bem… chegamos no “olho por olho, dente por dente”. E o que o mundo mais precisa é de olho no olho. De pessoas que se olham no olho e são capazes de enxergar além da pele. De pessoas que olham sem raiva, sem julgamento e capazes de se colocar no lugar do outro. Com empatia e compaixão. Para resolver conflitos e não gerar mais conflitos. De pessoas que são capazes de sorrir umas as outras. De acalmar o coração. Acalmar – do Latim Calare, “fazer parar de falar, aquietar”. Sempre com carinho. Por mais olho no olho. Com mais empatia e menos apatia. Ao outro e ao mundo.

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