Essa semana uma nova hashtag surgiu pra dar voz ao feminismo. Mas tem uma, em especial, que circulou há umas 3 semanas atrás que eu resolvi dar voz aqui novamente. Porque o assunto não é pra ser esquecido e, se de tempos em tempos, tivermos essas vozes pra falar com a gente, será de grande valia.

Hoje, a Malu, 18 anos ganha esse espaço pra falar o que ela, e outras meninas, vivem dentro das escolas. #AgoraÉQueSãoElas

“Não é de hoje que as relações escolares são permeadas por machismo, assim como toda e qualquer relação cotidiana. Seja entre colegas ou entre alunos e professores, o patriarcado se expressa das mais variadas formas e desde muito cedo, por vezes, muito antes de as próprias alunas se intitularem feministas ou reconhecerem o sexismo de certas atitudes.

A adolescência é um período extremamente conturbado e, falando como alguém que está deixando esta fase, se tem algo que realmente nos ajudaria seria antecipar o momento no qual entramos em contato com o feminismo.  Pensamento que compartilho com muitas: se tivéssemos conhecido o feminismo antes, muito sofrimento e muitos erros seriam poupados. Mas a descoberta é paulatina: a atitude dos colegas começa a incomodar mais do que o habitual, a piadinha do professor da qual todos riem já não soa engraçada e quando você menos imagina entra em contato com relatos de outras meninas em momentos parecidos, que buscam superar os mesmo obstáculos.

É assim que começa a trajetória de um coletivo feminista dentro da escola; na luta cotidiana por respeito,  na necessidade de “elevar” a voz para a instituição e para os colegas, de ser levada em consideração nas decisões. Assim iniciamos o coletivo do Santa Cruz em 2014 e surgiram tantos outros, como os do Nossa Senhora das Graças (Gracinha) e do Oswald de Andrade. E esse é só o começo, a sementinha de onde brotarão militantes aguerridas e mulheres empoderadas que transcenderão barreiras e levarão, desses primeiros dias de luta, as mais doces e, por vezes, doloridas memórias.

Os coletivos surgem com pautas corriqueiras e circunscritas à vida escolar (machismo de um professor, assédio de um colega, uso de shorts na aula de educação física), mas rapidamente ultrapassam os muros da escola, como no caso do movimento feminino mais recente, a chamada Primavera das Mulheres, que contou com a participação de muitas meninas de 14 a 17 anos que se descobriram em meio à lutas tão urgentes.

É desejável que a mobilização desta alunas movimente também as instituições, à exemplo das escolas australianas que instauraram feminismo na pauta do ensino obrigatório. Chegaram a essa medida por um processo parecido ao que acontece atualmente no nosso país: os coletivos foram iniciados por alunas a partir de discussões e da urgência em se unirem. Nas escolas australianas meninos e meninas aprenderão sobre igualdade e representações de gênero, lidarão com estatísticas de violência doméstica e refletirão sobre a visibilidade feminina nas mais diversas áreas.

O exemplo australiano é algo a se seguir, pois, levando em conta que as reais mudanças sociais só acontecem através da educação, seja em casa ou dentro dos muros escolares, um processo que pretende transmitir esses ideais para crianças seria extremamente benéfico para todos. Às meninas seria passada, desde cedo, a segurança e o conforto que residem nesse movimento e conceitos lindíssimos, como ”sororidade”: o pacto entre todas as mulheres que se reconhecem como irmãs no âmbito político e social. Aos meninos seriam transmitidas formas de apoiarem essa causa, sem fazerem do apoio uma busca por assumir o protagonismo. Eles seriam ensinados a, com ela, lutarem por um mundo melhor, além de entenderem a urgência da mudança de seus comportamentos..

Porque liberdade e igualdade surgem através de muito aprendizado. E que bom que nós, jovens, sabemos disso e reivindicamos melhorias constantemente. Fazemos barulho, manifestações, intervenções, ocupando cada vez mais espaços e escolas… mas isso é assunto para quando eu voltar a ocupar novas linhas”.

 

Maria Lua tem 18 anos, é estudante de Administração Pública e militante pelo feminismo interseccional.