Sempre. Porque pequenas ações provocam grandes mudanças. Foi e é assim na história da humanidade. As mudanças bruscas ou agressivas só fazem o reverso. E, definitivamente, movimentos que vêm na contramão merecem atenção. É daí que surgem as tendências. Do movimento pequeno que poucos fazem e que, aos poucos, reverbera e contagia a vizinhança ao lado. O professor de classe do meu filho Lucas, Gustavo Costa, tem uma frase linda. Ele diz que, quanto mais remamos contra a correnteza, mais a gente se aproxima da fonte. Daquilo que é essência, verdadeiro.

E o que parece, então, um movimento inverso e contra a corrente, nada mais é do que a busca pelo verdadeiro. Pelo significado real da vida. Da infância. Porque na correnteza, descendo o rio, estão crianças de agenda cheia. Que priorizam o suposto sucesso profissional na vida futura e esquecem do básico. Priorizam a cultura do fast whatever. Tem fast fashion, fast food, fast learning… Tem fast pra tudo. E na contramão tem o slow parenting, o slow food, o slow life. Ufa! Dá pra respirar. Então vamos com calma, porque menos é mais. Sempre foi. O movimento prega a desaceleração da vida como um todo. Desaceleração no sentido de fazer menos e não mais devagar – que fique claro.

O slow parenting apesar de parecer a ponta extrema do iceberg tem muito a ensinar e a propor. O movimento matriz, que é o Slow, prega a desaceleração no trabalho, na escola, na alimentação, no esporte, na vida social… e por aí vai. Quem deu vida a essa contramão foi o jornalista britânico Carl Honoré, pai de duas crianças, e autor do livro Sob Pressão, da Editora Record. Em seu site, ele conta como tudo começou, quando o filho de 7 anos recebeu um elogio da professora porque desenhava muito bem e ele logo vislumbrou, como pai, a possibilidade de o filho ser um grande pintor. Matriculou o menino em aulas extras de pintura, e então a criança disse a ele que queria simplesmente pintar. Foi com esse clique que Carl começou a se dar conta da superlotação das agendas das crianças e das expectativas que colocamos nelas. Nasceu aí o movimento “Pais sem Pressa” – fazer as coisas no tempo certo sem querer antecipar nada. Deixa brincar, deixa imaginar, deixa sonhar. Livre. Para aprender a fazer escolhas e ter a possibilidade de aprender nas descobertas. Senão caminharemos cada vez mais para o mundo pronto das imagens. Um mundo já construído. Basta agora apertar um botão. Assim como na vida, crianças precisam percorrer o caminho passo a passo. Sem queimar etapas do jogo.

Do lado oposto ao movimento, encontram-se crianças que vivem um dia a dia atribulado, seja na escola e seus períodos estendidos, as infinitas atividades extras, os compromissos, como dentista, fono e fisio, o Kumon, porque parece que nem as escolas particulares dão mais conta, as casas dos amigos (a vida social é intensa), a televisão, o iPad e (pasmem) a aula de etiqueta. O cronograma delas, muitas vezes, é mais apertado do que a agenda de muito adulto. E a gente, como pai e sociedade, deve-se perguntar o porquê.  Ou pra quê. Quem são essas crianças que estamos formando pro futuro? Os esforços certamente miram para esse futuro que tanto esperamos e suspiramos. Mas qualidade não é quantidade. Atolar a criança de atividades não significa que ela irá aprender e muito menos que será um adulto bem-sucedido na vida. “O futuro da criança é hoje. Bons vínculos afetivos, bom contato com os pais e tempo para brincar são fundamentais”, afirma o pediatra dr. Leonardo Posternak, presidente do Instituto da Família . “Nada justifica os esforços exagerados e perigosos feitos com uma criança para gerar um adulto exímio. Respeitar o tempo e as características individuais das crianças parece algo fundamental”, pontua.

Só que nada é por mal. Muito pelo contrário. Pais lutam pelo melhor para seus filhos e por isso estão sempre buscando informação e lendo livros e matérias (olha nosso papel aqui) para aprender mais e poder sempre fazer o melhor. Então a intenção de colocar seu filho para fazer vinte e uma atividades, além de estudar na melhor escola, é pelo bem dele. Mas melhor ainda será quando pudermos tirar o pé do acelerador e avaliar até que ponto isso é bom ou ruim, construtivo ou não. Listas infinitas de deveres onde não mais a experiência de vida, ou de viver, e a relação com o mundo são mais importantes, o slow parenting, ganha força no sentido de resistência. Almejamos pelo último modelo de celular e pelo sinal mais rápido da internet ao mesmo tempo que deixamos a distância entre as relações aumentarem. Almejamos por bebês que nascem já acelerados para aprenderem logo a andar, a falar e sair por aí à conquista do mundo. Mais uma vez fica a questão: o que queremos? Qualidade ou quantidade? O futuro pede uma mudança de comportamento que não precisa ser radical, mas precisa ter menos pressão. Equilíbrio e consciência. Porque menos sempre foi mais.