Quem foi que inventou isso? Quando foi que se instituiu que a participação de uma criança em um jogo, festival ou final de semestre escolar dão direito a medalha? Não estamos em final de semestre, mas as premiações acontecem ao longo dos eventos no ano. A se pensar porque estamos premiando participação e não mérito. Procurar outras formas de incentivar essa participação deveria ser algo a se pensar com muito carinho porque o caminho pra chegar numa medalha é longo e árduo. Não me parece coisa de festival. 

O esporte ensina princípios de vida que nenhum outro afazer consegue superar. Um deles é sobre o ganhar. Precisa de treino, muito treino. Precisa de garra, de perseverança, foco, insistência, persistência, humildade. Humildade. Em ganhar e perder. O atleta que empina quando ganha ou que se revolta quando perde, só perde. Dificilmente, ele se mantém no jogo, o que dirá no time. O esporte ensina que ganhar e perder é uma rotina constante e não existe ninguém para passar a mão na cabeça e consolar. O técnico, o bom técnico, vai dizer “levanta e tenta de novo”. Fácil fazer um paralelo com a reação de pais e mães quando os filhos se machucam. Tem os que correm pra enfermaria para colocar um band-aid e tem os que dão um aconchego, dizem que não foi nada e falam “vai”.

Mas estamos premiando apresentações de final de semestre, festivais de esporte e participações. “É medalha de participação”. Será? Estamos coroando a conquista fácil e rápida. A medalha é a última conquista de um atleta ou mesmo de um profissional e as crianças estão ganhando logo na largada. Saem dos eventos com medalha, kits e mimos. Saem cheios de aparatos e presentes. Tudo tem presente, tudo precisar presentear e, de novo, depois saem atrás do frango tentando construir uma sociedade mais consciência e menos consumista. Precisa presentear menos com “coisas” e mais com gestos. As medalhas são dos campeões, de quem chegou ao pódio com muito esforço, muita garra e muita conquista. Precisa imbuir a vida de mais significado.

As pequenas conquistas e aprendizados devem ser incentivados e parabenizamos, mas não coroados. Simbolicamente, dessa forma se ensina que a conquista vem fácil. Que os aplausos vão vir na vida a qualquer maneira. E dai como fazer quando não tiver palmas? Não tiver medalha? Quem vai segurar a birra? Não pode ser o mundo. Não pode ser a dona Vida. Tem que começar dentro de casa para ir ampliando as relações. Porque menos é mais. Crianças precisam de menos. Sempre.

Almejamos pelo último modelo de celular e pelo sinal mais rápido da internet ao mesmo tempo que deixamos a distância entre as relações aumentarem. Almejamos por bebês que nascem já acelerados para aprenderem logo a andar, a falar e sair por aí à conquista do mundo. E coroamos as primeiras conquistas com aplausos e medalhas. Mais uma vez fica a questão: o que queremos? Qualidade ou quantidade? O futuro pede uma mudança de comportamento que não precisa ser radical, mas precisa ter menos pressão. Equilíbrio. Sabedoria – vejam os mestres ocidentais, quanto mais tempo, maior a sabedoria. Porque menos sempre foi mais. E porque tenho esperança em esperar. Os aplausos vêm. As conquistas também. Mas precisa de tempo. De humildade. Do grego húmus – terra – o que tem os pés na terra. Realidade.