Até onde eles vão? Até onde a relação de parentesco entre duas pessoas influência em suas atitudes?

Explico. Outro dia conversando com a coordenadora de um CCA (Centro da Criança e do Adolescente), ela me contou sobre um aluno que sofreu violência sexual. Quem praticou foi o irmão mais velho. A mãe denunciou o filho, que agora vai responder processo.

Mudando de cenário, mãe e filho assistindo a um capítulo da novela das 9. Na novela, o filho testemunha contra a mãe que está sendo julgada por assassinato. O menino, que está assistindo a novela fica indignado. “Como um filho denuncia a própria mãe?”. E daí eu volto a pergunta do início deste texto: até onde vão os laços de família? Ou lastros. Como, ou até onde, o amor e o vinculo familiar pode influenciar na sua conduta e postura ética perante a vida? Difícil.

Essa mãe que denunciou o filho que violentou o outro filho foi de uma coragem atroz. Uma decisão que extrapola a relação mãe e filho, que extrapola esse amor incondicional, e é capaz de olhar o outro. Não apenas o que sofreu a agressão, mas os que podem a vir sofrer também. Porque uma mãe quando toma uma atitude como essa está pensando não apenas no seu filho, mas nos filhos dos outros. Uma generosidade com a vida do outro tão grande quanto o amor pelo próprio filho. Porque por mais difícil que seja, ela está ajudando este filho a entender o que aconteceu e a olhar as consequências dos seus atos. Isso se chama “crescer”. Amadurecer e se tornar responsável pelos próprios atos. Só assim seremos livres.

A importância do meio familiar na aprendizagem, seja ela qual for, é tema de estudos e teses de doutorados constantes. Porque fica claro que o ambiente e as pessoas que compõe uma família influenciam diretamente na formação das pessoas que ali convivem e vivem. Não só por meio da cultura, como de valores, ética e moral. Sabe aquela coisa de dizer que a criança aprende por imitação? Imitação tanto das pessoas com que ela convive quanto da cultura que a cerca. Isso para dizer que não é, necessariamente, porque um irmão violentou o outro sexualmente que o violador tenha sido violentado também. Ou tenha assistido alguém ser violentado. A violência pode estar no meio em que ele vive. Pode permear a vizinhança, a comunidade, a casa do amigo, o amigo… Para positivos e negativos, os aprendizados dentro de uma família são imensos. São laços do que a gente é, ou torna-se.

A família é um sistema vivo onde os componentes reagem e influenciam-se uns aos outros de forma recíproca. Há vínculos afetivos e psicológicos envolvidos numa relação familiar, e ao mesmo tempo espaços de privacidade, de autonomia e de individualidade que devem ser respeitados. Isso é o que a psicologia chama de vínculo parental, que são os laços afetivos e emocionais que unem pessoas tão diferentes entre si. É justamente por serem diferentes que surgem os conflitos. Morais ou não.

E a quem está de fora, resta não julgar. Não apontar o dedo para dizer sobre aquela mãe ou aquele filho. Relações familiares são muito mais complexas do que nosso coração pode dizer. Ou são muito mais complexas do que nossas mentes podem sentir. É preciso construir laços e saber que em algum momento ele pode se desfazer. E vai ser preciso muito trabalho para poder recompor. Assim nas relações, assim na vida. Como a respiração. Num pulsar inconstante, mas rítmico.