Semana passada, ouvindo o programa Escola da Vida, na CBN, com o professor e filósofo Mario Sergio Cortella, uma frase (ou definição) dele me chamou muito a atenção. Porque fez um sentido enorme. Mario Sergio falava da perda do médico e psiquiatra Içami Tiba, citando e comentando algumas de suas frases. Entre elas uma que falava sobre dar limite aos filhos. Ou seja, disciplinar. Ensinar. Mas “limite na medida certa”, como pontuava. E Mario Sergio desenvolve a frase dando sua definição de limite na disciplina.

 

“A disciplina tem fronteiras, e não barreiras. Porque fronteira delimita até onde você pode ir. Barreira é pra ser ultrapassada, por natureza”.  Brilhante. Definição perfeita. E que nos coloca em contato diretamente com o limite, até onde devemos ir. Qual limite saudável da disciplina e onde ela se perde e vira força, vira empecilho? Semana passada também teve um caso de um policial que algemou duas crianças de 7 e 9 anos, por 15 minutos, numa escola pública nos Estados Unidos. Porque as crianças tiveram comportamento indisciplinar em sala de aula. Como forma de punição, esse policial insano deixou as crianças algemadas enquanto choravam para aprenderem. Oi? Aprender o quê? Óbvio que estou usando de exemplo um caso extremo e totalmente repudiável, mas existem pais e educadores que disciplinam pela força, pelo medo, pelo susto. Pra ensinar é preciso, antes de mais nada, de amor. De cuidado, calma e paciência.

 

No dicionário, o substantivo feminino disciplina atende pelo significado de “ordem, regulamentação, conduta que assegura o bem-estar do indivíduo ou o bom funcionamento”. Disciplina é uma palavra do latim que significa “instrução, conhecimento, matéria a ser ensinada”.  Por isso, as matérias na escola chamam disciplina. E esta deriva de discipulus, “aluno, aquele que aprende”, do verbo discere, “aprender”.  Toda essa volta pra dizer que pais e mães, nesta função, são transmissores de seu conhecimento, do seu saber. E transmitir conhecimento é uma forma de mostrar as fronteiras do mundo. Dizer até onde ele pode ir, o que pode ou não fazer, e como se portar. Dar as ferramentas para que cada criança consiga, dentro de suas capacidades, ultrapassar as barreiras e fazer suas conquistas.

 

E isso começa em casa, com os pais. Dando exemplo, claro. E colocando limites. Educar pelo “livre-leve-e-solto” é falso moralismo. Falsa liberdade. Porque não existe deixar fazer o que quiser e achar que está educando. Ou usar o argumento de que ele ainda é muito pequeno pra aprender isso. Não. É pequeno que se começa. Não é engraçadinho criança mal-educada e sem limite. Sem limite quer dizer sem noção de fronteira. De até onde ela pode ir. E quando a criança crescer e se tornar um adolescente, sai por aí, cada vez mais cedo, achando que pode tudo. Que pode beber, pode pegar o carro emprestado só um pouquinho, pode não mais avisar onde está e por aí vai. Mas educar está difícil.

 

Eu diria que o sistema está falido. Em casa e na escola. Pais não têm mais controle sobre os filhos, e, professores não têm mais controle sobre os pais. Sim. Sobre os pais. Tá feio o negócio. Porque parece que, para justificar suas falhas, pais culpam as escolas e os professores pela má educação de seus filhos. Marcam reuniões pra tirar satisfações. Oi?! Quando deveriam se perguntar “onde foi que eu errei e como posso melhorar?”.  Cara de bravo não assusta ninguém.  E livro pra ensinar isso aos pais é o que não falta. Experimente dar uma passeada pela seção educação e família de uma boa livraria. A quantidade de livros de autoajuda, eu chamaria assim, chega a ser assustadora. E ela, nada mais, nada menos, que reflete a demanda. Ou seja, pra cada livro publicado com uma capa que diz “Como educar seu filho”, existe uma centena de pais sem norte. Como dar norte se não temos norte? Lembre que disciplina impõe fronteira e isso exige noções de direções.