Entre brancos, negros, índios, amarelos, xadrezes, listrados, mulheres, homens, gays, deficientes físicos, anões e mais uma infinidade de classificações que existem no mundo. Amor é amor e toda forma de amar é justa.  Não existe condições ideais de amor, ou para o amor. Existe amor e ponto.

O mundo é cruel, eu sei. Intolerante. Chega a ser quase intolerável. Nosso desejo, como ser humano e como sociedade deveria desejar felicidade a qualquer um que seja e da forma que for. Porque isso não é problema nosso. Aliás não deveria ser problema. Feio é não saber amar, isso sim! Quero meus filhos vendo a delicadeza do amor entre as diferenças. Quero meus filhos vendo amor de verdade. E não telejornal. Aprender a se relacionar com quem você não gostaria por perto é tão vital quanto o ar que se respira.

Crianças não fazem julgamentos ou discriminações como adultos. Elas amam porque amam. Sem explicações. Com os filhos temos a grande oportunidade de repensar e começar de novo. Olhar as pessoas e as diferenças da mesma altura. Sabe quando você abaixa pra falar com uma criança? Pra olhar olho no olho? É nessa altura que eles nos colocam pra lidar com o que incomoda ou é diferente. É educando eles que temos a oportunidade de nos olhar, nos questionar e poder fazer de novo – só que diferente. Só com amor. Sem achar que um homem e uma mulher juntos podem ser melhores pais do que dois homens, duas mulheres ou uma avó… sei lá. É simplesmente diferente daquilo que estávamos acostumados até pouco tempo atrás. E a vida está nos dando a oportunidade de repensar e fazer diferente. E são nos encontros que está o essencial dessa dona Vida.

Família, em sua origem, pressupõe diversidade. Imagine uma família de letras, de tipologias, de cores. “A família é a unidade básica da sociedade, formada por indivíduos com ancestrais em comum ou ligados por laços afetivos”. Tá lá no Wikipédia assim e quem escreve o Wikipédia não sou eu. Somos nós. No livro Por que sou uma Menina Xadrez, da autora Blandina Franco e ilustrado por José Carlos Lollo, a personagem sai a procura da origem da sua estampa e descobre que tinha uma tia listrada, um tio avô de outra cor, uma bisavó de bolinhas… e que todas essas diferenças fazem dela hoje uma menina xadrez. Buscas bem atuais do nosso mundo contemporâneo e uma questão a se pensar: o que queremos deixar a nossos filhos como raízes, como família? Qual história a gente quer contar?

Tentar viver a vida sem pré-conceitos é um desafio gigantesco! Difícil se livrar de julgamentos. Tirar o dedo da cara do outro. E não ensinar pré-conceitos a nossas crianças é maior ainda. Porque exige controle, exige postura, exige olhar, exige amor. Amor em poder reconhecer no outro algo que também existe na gente. Somos todos um. Somos feitos de muitas pessoas. Existe um ritual muito simbólico no cristianismo que é o de levar uma coroa de flores a pessoa que faleceu. O gesto simboliza algo que diz “as sementes que você plantou em mim eu lhe devolvo como flores”. As pessoas passam em nossas vidas e deixam um pouquinho delas com a gente, ou na gente, e esse monte de pequenas sementes que vão ficando se tornam um grande pedaço de nós também.

Então vamos distribuir flores. Por uma vida mais doce. Por uma vida com mais cor. Por uma vida com mais amor. Onde num futuro teremos formado e instituído, como forma de viver e se relacionar, uma sociedade menos preconceituosa. Menos cheia de certezas e mais livre. Onde a expressão das crianças tenha mais força e mais afinidade com a vida adulta.