Querida classe,

Ultimamente tenho feito longos caminhos até o trabalho e de volta pra casa. O que tem me dado tempo de pensar sobre as escolhas que a gente faz, os caminhos que a gente decide seguir e as pessoas que cruzamos por ele. Ou as pessoas que a gente encontra por estes caminhos. Nada por acaso. Sou daquelas que acredita nas forças dessa dona Vida. Tudo isso porque fico por esses caminhos entre trabalho/casa pensando nas escolhas que fazemos e nos filhos que crescem. Pedro, meu filho adolescente, decidiu mudar de escola. Ano que vem Pedro vai estudar numa escola nova. Desejo dele. Vontade madura dele.

A história é longa, o processo foi longo, mas muito maduro e respeitoso. E muito bonito de acompanhar. Pedro quer conhecer outras possibilidades. Quer saber mais, quer ser desafiado. Quer poder ter português e matemática todos os dias. Quer livro. Quer mais provas. Pedro está cheio de “quereres” cheios de justificativas e certezas. Todos do alto dos seus 12 anos. Mas todos tão condizentes à sua personalidade que, eu e Daniel, como pais, não podemos deixar de ouvir. Agora não é só mais a gente que escolhe. Somos nós. Acreditamos muito na escuta, nas conversas e no respeito da individualidade de cada um. Pedro merece toda nossa escuta. Com muito carinho, ele teve. Nossa e da dna Glaucia, sua professora. Que assim como há 6 anos atrás abriu as portas da sala pra ele, agora se despede. Com o mesmo sorriso no rosto e com a mesma alegria no abraço.

Pedro veio pra escola depois de uma experiência em outra escola. Ele era pequeno. Chegou assustado, quieto, inseguro. Não sabia direito do que gostava de brincar. Recebeu carinho, recebeu sorrisos, recebeu amigos, recebeu uma professora de um forte aperto de mão no “bom dia”; recebeu um verso lindo só seu; recebeu um caderno em branco e a possibilidade de fazer desenhos lindos e cheios de sentido; recebeu uma flauta pra tocar; recebeu duas agulhas pra tricotar; recebeu mudas pra plantar; recebeu a possibilidade de ser quem ele é hoje. Na antroposofia, dizem que o “eu” é formado por todos aqueles que passam por nossa vida. É a tal da historia dos caminhos que comecei essa carta a vcs. Pedro tem tantos amigos dessa escola querida que o ajudaram a ser quem ele é hoje. Tantos amigos. Amigos que me enchem os olhos d’água. Que me apertam o coração de saudades em saber que a distancia será maior. Mas são sementinhas plantadas do coração dele que vão onde for com ele. Por uma vida inteira. Independente da escola onde estiver.

Numa das conversas com dna Glaucia, um dia ela me falou que o Pedro estava super tagarela nas aulas. E que, de vez em quando, ela lembrava da carinha de quando ele chegou na escola e pensava “Deixa. Deixa ele brincar um pouco mais”. Isso já tem uns 3 anos e eu sempre olho pra ele com esse mesmo olhar sensível que a dna Glaucia teve. Sempre muito cuidadosa no olhar, no falar, nas broncas e nas brincadeiras tb. Muito cuidadosa nesse processo com ele, nas conversas que tiveram. Sempre muito parceira. Dna Glaucia ajudou a gente a puxar o fiozinho do Pedro. Fiozinho da alma, sabe.

Vamos morrer de saudades da classe cheia de desenhos na parede, das aquarelas, dos cadernos caprichados, da lousa sempre com um desenho impecável de detalhes, do cantinho na sala. Vamos morrer de saudades de tantas coisas que a escola nos ensinou. Foi uma mudança nas nossas vidas. Matriculamos a família inteira e a gente fez uma imersão. Quantas coisas não mudamos em casa porque aprendemos na escola. Quantas coisas não levamos pro mundo que aprendemos na escola. Foram inúmeras. São inúmeras. É a historia da pedrinha no rio que reverbera. Se despedir da sala, de vocês, é também se despedir um pouco da escola. Mesmo que continuaremos aqui com os outros filhos. Mas tem um pé já saindo pra fora. Pé de filho que cresce. Que dá um misto de sentimentos. O peito enche e aperta na mesma proporção. O mesmo Pedro que nos levou até essa escola, hoje nos leva a olhar outras possibilidades de novo. Filho que cresce.