“Brincar de brincar não é fácil”. “Porque a gente teve coragem de inventar uma brincadeira né?”. As falas são de duas crianças que participam do filme Brincantes, de Nélio Spréa e Elisandro Dalcin (2010), filmado numa escola pública da cidade de Curitiba, Paraná. Super interessante, o filme explora não só as brincadeiras, mas como elas se dão. Como formam os grupos; como que eles instituem e organizam as brincadeiras; quem faz o que (papel de cada um); meninos e meninas; relação com espaço; relação com os objetos que ele oferece. Enfim, um arsenal de elementos que para quem estuda e trabalha com educação é um prato cheio.

“A ação de brincar é uma atividade humana que se produz cultura”. Frase de Vigotski essa. E sim, ele tem toda razão! Se produz cultura e se reproduz também. Sabe aquela frase clichê de que crianças imitam os adultos? Na verdade, elas reproduzem o ambiente e o mundo em que vivem. Não é só da família que veem as referências dela. É do mundo. Porque a criança vive no mundo e é o mundo que vai dando elementos a ela para contar coisas. É a brincadeira simbólica, do faz de conta. Do “finge que você é a mamãe e eu o bebê”.

E que delicia poder ter a capacidade de se imaginar outra pessoa, ou coisa, e o ser. Sem preconceitos e sem barreiras lógicas. Tai um belo papel da brincadeira! É quase que uma garantia de direito a vida com graça. Pelo direito de imaginar, viver e ter a certeza que nada naquilo é real. Que privilégio! E ainda há quem questione se criança precisa brincar… Poxa! Se não!

Mas “brincar não é nada fácil”, diz um dos meninos do filme. Exige coordenação e coorperação de grupo; exige que todos cumpram regras; exige regras; exige saber lidar com ganhos e perdas; com ser quem você gostaria ou abrir mão em prol de ter o amigo brincando também; exige fazer acordos; exige ideias. Tem que ter imaginação pra brincar. E precisa de coragem pra imaginar. Quem é o adulto aqui que aind atem coragem de imaginar e viver da sua imaginação? São poucos! E que privilegio poder crescer e preservar algo tão particular do ser humano.

O adulto precisa parar de olhar de forma tão determinista pra brincadeira, e para o universo, da criança. Deixa ser. A experimentação que acontece na brincadeira não é condição alguma de quem ela vai se tornar. Um menino que brinca de casinha não será gay e uma menina que brinca de carrinho não será gay também. Isso se chama preconceito. Medo de pai e mãe. E se a gente tirar a imaginação da brincadeira vão restar apenas as regras sociais. Dai perde a graça. Perde a infância.

E uma coisa são as regras da brincadeira. Outras são as brincadeiras com regras. Tem que olhar o brincar como espaço de liberdade das relações para poder desconstruir lugares de meninas ou meninos. Ou lugares de “normais” e crianças “especiais”. Lugar de criança é na roda de brincar. E roda gira o mundo. Brincadeira voa, vai longe. Feito passarinho. “A capacidade dela (da brincadeira) é que ela pode rodar o mundo”, diz uma menina no vídeo.

“E se a Kelly Key que é uma adulta pode inventar uma música, uma criança pode inventar uma brincadeira. E isso é grande, né? Porque a gente teve coragem de ir lá inventar”. Isso é realmente grande. Gigante. E ainda tem muito professor e escola que precisa ficar justificando o brincar na educação à pais que indagam: “mas o que eles fazem aqui? Porque só vejo eles brincando. Meu filho não aprende nada!”. Realmente, brincar não é nada fácil…Por mais tempos de brincar.

Brincantes