Agora também foi proibido. Sim. Acredite se quiser. Mesmo sem calda, à moda antiga, tipo bolo simples pra comer com café ou suco. Virou inimigo das refeições sadias e equilibradas.

Uma escola de ensino infantil em Perdizes sugeriu aos pais que bolo de chocolate simples estava, a partir de agora, entre os itens de alimentação “não recomendados” para a lancheira e comemorações de aniversário. É isto: bolo de chocolate em festa de criança não pode mais. Desculpem a clareza, mas estamos ficando loucos, neuróticos e insanos. O nível de informação – e especulação – sobre o que é ou não saudável chegou num grau tão elevado que se corta tudo. Não se come mais nada achando que se está comendo bem. Vamos comer apenas bolo de biomassa de banana com cacau orgânico, manteiga ghee, sem ovos para ser vegano, e por aí vai. Aquele bolo que sua avó fazia, que te desperta uma avalanche de boas memórias, não pode mais.

Nada contra o bolo de biomassa (eu mesma como e adoro), mas quando os extremos tomam conta de qualquer decisão nossa algo está errado. Antes do Carnaval a apresentadora e chef de cozinha Rita Lobo, deu uma entrevista nas páginas páginas amarelas da revista Veja, onde ela fala sobre o tema e a neurose que vivemos depois de uma polêmica resposta sobre uma receita de maionese. Rita sugere voltarmos atenção à qualidade do que comemos. Ou seja, trazer de volta à mesa ingredientes “feitos em casa” e não superprocessados. Na entrevista, ela fala também da diferença de um industrializado e dos superprocessados, que são os grandes vilões na alimentação dos brasileiros.

Um estudo publicado na revista científica Lancet, e divulgado no site da BBC, mostra que um quinto da população brasileira adulta, ou quase 30 milhões de pessoas, é obesa. O número é maior entre as mulheres: 23% delas, ou 18 milhões, eram obesas em 2014. Entre os homens, o índice é de 17% (11,9 milhões). Os dados colocam o Brasil entre os países mais obesos do mundo. Entre os homens, só fica atrás de China e EUA; entre as mulheres, o Brasil fica em quinto lugar, atrás também de Rússia e Índia. Chocante! Isso só reforça que estamos comendo errado, e cada vez mais. Então as neuroses não estão trabalhando de forma positiva. Muito pelo contrário. Existe agora o termo “ortorexia nervosa”, que dá nome a um novo distúrbio do comportamento alimentar caracterizado por uma obsessão em comer saudável. O termo vem do grego e quer dizer “apetite correto” e foi criado pelo médico americano Steven Bratman, autor do livro Health Food Junkies (Viciados em Comida Saudável).

Segundo a médica Diana Vanni, as pessoas com esse quadro apresentam uma preocupação excessiva com a qualidade da alimentação, limitando a variedade e por isso acabam excluindo certos grupos de alimentos, como carnes, gorduras, laticínios e carboidratos. “Sem se fazer a substituição adequada pode levar a quadros de carência nutricional ou a um completo distúrbio de conduta alimentar”.

Isso reforça meu pensamento: passamos a comer com o cérebro e não mais com a emoção – ou com o coração, como diria minha vó. Uma pena. Claro que existe uma necessidade física que precisa ser nutrida por alimentos saudáveis, mas e o prazer? E os sentidos? Como a gente os alimenta? Estamos tão preocupados com o que levamos a boca que esquecemos que alimentar-se envolve saciar todos os nossos sentidos. É um ato muito maior do que ingerir nutrientes. É um ato social e pessoal, antes de tudo.

Quando se come com atenção, os sentidos se alimentam. Sentir o que se come está ligado a saciar a fome de maneira mais saudável, menos gulosa. Sabiam que os orientais mastigas até 20 vezes o alimento na boca? Não só para deglutí-lo bem, como para saciar a fome. Quanto mais saliva a boca produz, mais ela manda informação ao cérebro de que você está bem alimentado. Ouvir o que se come também está ligado a saciedade. Sentir o tato está ligado as descobertas das texturas no palato e na língua. Descobrir o quente e o gelado, o líquido e o pastoso. Comer envolve saciar a fome. Comer envolve saciar os desejos, os anseios, os sentimentos. Quantas pessoas não comem por ansiedade? Os consultórios estão cheios de casos assim.

Agora, mais do que nunca, os consultórios estão cheios de anseios por uma alimentação que não existe. Muita proibição, muita restrição, gera escapadas violentas. Porque ninguém vive nesse mundo de nutrientes. As pessoas deixaram de comer pão para dizer que não comem glúten. Deixaram de comer bolo porque bolo é carboidrato. Deixaram de tomar e usar leite porque é lactose. Com isso as pessoas estão esquecendo das relações todas que envolvem a comida e o ato de comer. Tá faltando relação junto à mesa para poder diluir tanta neurose. Como dizem os terapeutas, é na mesa que temos a grande oportunidade de conhecermos uns aos outros, saber como foi o dia do filho, se está tudo bem, se tem algo acontecendo… É na mesa que se conversa, que se troca. Muito mais que comida, mas palavras. Relações. Nosso grande desafio está em expandir o conceito de alimentação saudável e criar relações saudáveis das crianças com a comida. Mais alegria e menos alergia. Esse devia ser o lema.

Aquele bolo de chocolate feito pela avó junto com o neto para o seu aniversário, recheado de sabores, cheiros e memórias, pode ser muito mais saudável do que aquele brócolis que passou desapercebido do prato direto para a barriga com o intuito de ser apenas nutritivo. Um não precisa, e não deve, excluir o outro. Cada um com sua função. O bolo a gente come pra nutrir a alma. O brócolis a gente come pra nutrir o corpo. Precisamos nutrir corpo e alma. Nutrir as relações que se põem à mesa. De quem come com o que come, de quem come com quem prepara, de quem como com quem serve. Por mais relações saudáveis à mesa. Por mais relações saudáveis com a comida. Mais alegria e menos alergia.

Para fazer durante um tempo livre e ficar feliz

Receita:
Ingredientes
♣ 3 copos de farinha de trigo
♣ 2 copos de açúcar
♣ 1 copo de chocolate em pó
♣ 1 copo de óleo
♣ 3 ovos
♣ 1 copo de água quente
♣ 1 colher de sopa de fermento em pó

Preparo
♣ Em uma tigela misturar o açúcar e o chocolate em pó
♣ Em seguida misturar as gemas
♣ Aos poucos acrescentar a água e o trigoa farinha de trigo
♣ Em seguida juntar o fermento e, por fim, juntar as claras em neve
♣ Despejar numa forma untada e colocar para assar por aproximadamente 40 minutos