Por definição do dicionário, padrinho ou madrinha significa proteger/defender. É sinônimo de amparo, de favor. Por definições sociais e culturais, padrinho ou madrinha é aquele que provê algo a uma criança ou adolescente. Algo como “você precisa, eu posso, então te dou”. Mas, e por definições humanas, o que seria? É aquele que provê o afeto. Que dá carinho, que está presente e que se faz presente.

Mas o dia a dia está muito mais cheio de padrinhos da sacolinha, padrinhos de batismo ou padrinhos financeiros. Que são sinônimos de um padrinho desconhecido, com o qual a criança não tem contato, muito menos vínculo. Um padrinho que tem no nome a função do cuidar, mas que muitas vezes estabelece pouca relação com a criança ou o adolescente. Temos muitos padrinhos assim. Que ajudam da forma que lhe pedem – e também como podem. Padrinhos que ajudam de formas mais difundidas em sociedade.

Época de final de ano é muito comum a gente ver a disseminação do conceito de apadrinhar uma criança ou adolescente. Escolhe-se um nome da listinha de uma instituição e doa-se roupas e brinquedos. É uma forma de ajudar, claro que sim. Mas acredite: o presente de um desconhecido a uma criança em situação de acolhimento, por exemplo, tem pouco significado. Imagine você, ou seu filho, recebendo um presente de um desconhecido. De alguém que não te conhece, que não sabe do que você gosta, não sabe qual é tua cor preferida ou seu cheiro. Do que vale ganhar um presente e não ganhar a presença? Do que vale o presente sem o valor da presença de quem o deu? Sem o vínculo afetivo da relação de quem dá e de quem recebe.

O que isso quer dizer? Quer dizer que, por muitas razões, somos ensinados e incentivados a apadrinhar crianças e adolescentes de forma financeira ou material achando que estamos fazendo o bem a alguém. Mas apadrinhar uma criança ou um adolescente deveria significar dar apoio, compartilhar uma angústia, sentar pra bater um papo, sair pra tomar um sorvete ou brincar no parque. Apadrinhar é construir uma relação afetiva e poder trocar afeto.

“Quando a gente fala de vínculo, a gente fala de uma relação de troca afetiva. E quando a gente fala do apadrinhamento, estamos falando da relação de um adulto e uma criança ou adolescente, e que a partir da troca, um passe a existir na vida do outro de forma constante”, define a coordenadora do programa Apadrinhamento Afetivo, do Instituto Fazendo História, que trabalha há 12 anos com crianças e adolescentes em serviços de acolhimento. Entenda-se que são crianças e adolescente que por razões diversas foram temporariamente afastadas de suas famílias e vivem em serviços como os abrigos (o que antigamente era chamado de orfanato).

Crianças e adolescentes que moram em abrigos recebem muito – muito mesmo – sacolinhas de natal ao serem “apadrinhadas” nessa época por desconhecidos. Pessoa como nós que vamos surgir uma única vez na vida delas e depois sumir, com a mesma velocidade. Conversando com a Mônica, do Fazendo História, a gente entende, perfeitamente, qual o papel de um padrinho ou madrinha em lugares como este. E confesso: a gente se sente tão estranha por ter dado sacolinhas de presentes a crianças que nunca vimos na vida, que a postura muda. Impossível acharmos que estamos apadrinhando alguém sem saber se a pessoa do outro lado está interessada em receber. Simplesmente, e grandiosamente, porque não existe vínculo.

“Vinculo precisa de tempo para ser construído. Não é imediato e também não pode ser imposto. Ninguém diz a ninguém para amar o outro e ponto. Tem que ser construído com convivência”, completa Mônica. Muitas vezes, a gente estabelece isso na vida ao longo das relações que vão se ampliando. Pode ser a amiga da sua mãe, o amigo do meu irmão…. Desde quando a gente começa a frequentar a escola, vamos construindo uma rede com a qual podemos contar e criar vínculos.

Assim acontece também com crianças e adolescentes que estão em serviços de acolhimento. E por uma serie de razões, elas precisam de apoio. E nesse contexto, o apadrinhamento é uma ótima política para aqueles que provavelmente ficarão acolhidos por muitos anos. “O apadrinhamento é uma das alternativas para essa construção já que muitas vezes essas relações não acontecem de forma tão espontânea como na vida de quem não esta em acolhimento”, aponta Mônica. A juíza da Vara da Infância e Juventude, dra Carla Montesso Eberlein, da Lapa, traz mais um ponto. “Tem uma coisa que a política pública nunca vai poder oferecer a esse jovem que é o afeto”. “Acredito que para esses jovens que vão permanecer em acolhimento, o apadrinhamento é a melhor política que se apresenta”. O objetivo do apadrinhamento é garantir vínculos individualizados e duradouros para a crianças e adolescentes com pouca chance de retorno familiar ou adoção.

E o que vai fazer esse padrinho? Ajudar, ensinar, acompanhar, participar. Vai estar. Estar junto. Estar presente. “O vinculo é extremamente reparador. Faz com que eu entenda que eu existo na vida de alguém”, fala Mônica, do Fazendo História. E existir na vida de alguém significa, como toda relação humana, que vão ter momentos bons e momentos difíceis e aí o adulto precisa estar presente. Presente. Porque não tem melhor presente que a presença. É sempre um jeito carinhoso de existir na vida de alguém. Quem não gosta de ganhar?

Existem 47mil crianças e adolescentes em serviços de acolhimento, segundo o CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Te convido a pensar diferente neste final de ano e oferecer a quem você puder, e quiser, um presente mais cheio de presença. Porque histórias de mudanças só são possíveis com a contribuição de outras histórias. Histórias de pessoas. Como você, como eu, como nós.