Que a fé não costuma falhar… já cantarolava Gilberto Gil com aquela melodia gostosa cheia de ritmo de praia. Dizem os cristãos também que “a fé move montanhas”, não é? E o que a fé pode fazer na/pela infância? Qual sua contribuição? Ou papel? O acreditar em algo maior, que transcende a nossa existência material na Terra, pode, de verdade, mover montanhas. Acreditar na força superior, independentemente do nome que se dá, muda a relação com o mundo. E mudar o mundo me parece uma aspiração de todos. E “o que a gente faz hoje com as crianças é o que elas farão com a sociedade no futuro”, diz Karl Mannheim. Trazer espiritualidade para um mundo tão cheio de vazios me parece um caminho.

 

Espiritualidade não é religião. Pode estar ligada a uma crença. Fé não é religião. Fé é confiança. Confiar – fiar junto, fazer junto. Fazer da vida na Terra uma parceria com a vida no cosmo. Ou a vida após a morte. Entender a morte como passagem e não como perda. E trazer a espiritualidade para o mundo da criança pode ter um valor inestimável. Porque é um instrumento de consulta interna. O silêncio que se aprende com a espiritualidade é um olhar pra dentro de nós. Pros sentimentos, pras sensações, pras emoções. É enxergar a própria alma. Na calma.

 

Muda a experiência com o tempo. Deixa de ser chronos para ser inteiro. A espiritualidade traz a possibilidade do tempo sagrado, da pausa, do religioso. Religião – religare –, voltar-se ao centro. Na música, diz que só se percebe o som na passagem de uma nota a outra. É na pausa que se faz a música. Audição cria mundo interior. É como se contemplar. O mesmo é na vida que a gente silencia. E o não silenciar é o mesmo que não escutar a vida. Vida que fica dentro da gente.

 

Para a medicina chinesa, o umbigo é o centro do universo. O centro da vida. De onde nasce vida, se expande a vida. E na acupuntura é o único ponto que não se toca. Se silencia. Na busca pelo sentido. De ser e estar. Seja criança, seja adulto, seja idoso. Porque a vida é um ciclo e só vamos levar dela a vida que vivemos.

 

Criar um espaço para estabelecer relação com o sagrado, de novo, me parece bem importante. E pode ser uma contemplação à natureza, uma meditação, uma oração.  Um ritual que tenha começo, meio e fim, é uma forma de nutrir a relação com o sagrado. E isso pode ser a oração do anjo da guarda na hora de dormir, como pode ser um despertar ao sol, um agradecimento pelo alimento que se tem, um gesto de respeito, a empatia, um mantra. Mantra – aquilo que clareia a mente. Na meditação, ele tem o poder de trazer a oração da mente ao coração.

 

Pode ser também um silêncio. Silêncio para a saúde psicológica e crescimento espiritual. Não é estar com Deus, mas comungar com Deus. É mais do que a crença. No livro O outro pé da Sereia, do escritor moçambicano Mia Couto, tem uma passagem que linda em que diz  “alguns rezavam a Deus, eu rezava com Deus”. É o estar juntos. Fazer juntos, um pelo outro.

 

E Platão tem uma frase em que diz que  “uma criança não é um vaso a se encher, mas uma alma a educar”. E educar para um mundo que transcende o material, o palpável, me parece formador, em contraponto ao que temos estabelecido. Porque precisamos criar afinidade com a vida. Aqui e lá. E “quando eu me for, quero ir de mão dada com a criança que eu fui”. Eu também, José Saramago. Na pureza dessas almas.