Tudo começa pelo “de onde vem” no comer. É das raízes, das origens, que a gente busca memórias na linha da vida. E com a criança não é diferente. Começa lá no contato pela amamentação com a mãe, depois as primeiras descobertas de paladar com as frutas e papinhas. Daí vem o sentar à mesa, os sólidos, os amargos e azedos. Vem o açúcar, também. O quentinho do leite que traz aconchego nos sentimentos. As festinhas e as mesas cheias de comidas. As festas tradicionais e as comidas típicas. O sentar à mesa com os pais. O ir pra cozinha com a avó. É a comida e o papel social que ela tem. O papel de criar laços e memórias.

 

O filósofo e escritor Tomas Abraham diz que “a pessoa que não come bem não tem um problema educativo, tem um problema social”. De origem? Talvez. Câmara Cascudo fala do alimento como cultural e fala da refeição como elemento pacificante. E tem o projeto do chef Alex Atala “Eu como cultura”. Porque a comida, o alimento, conta nossa história. Quem viu a exposição Alimentário, ano passado na Oca, em São Paulo, já entendeu um pouco do que estou trazendo aqui.

 

E perguntar de onde viemos, e pra onde vamos, parece duas perguntas bem atuais nos tempos em que vivemos. Descobrir raízes, construir a árvore genealógica, da vida – e pra vida. Porque na origem do alimento a gente encontra nossa alma. Ali tem memória, tem lembranças, sensações, cheiros, sabores. Tem sentido. De percepção e de norte. O bebê procura o peito da mãe pela percepção do cheiro, da pele, do alimento. E pelo norte de sobrevivência.

 

No campo das tendências futuras, quando a gente fala sobre alimento, fala-se, inevitavelmente, em consumo consciente, em orgânicos e alimentos de origem. Ou seja, alimentos que tenham raízes. Fala da recuperação dos alimentos em sua origem. Culinária regional e tradicional. E, no campo dos seres humanos, existe um forte resgate ao que é verdadeiro, à essência. A busca das raízes pela essência do que somos e de onde viemos. Histórias paralelas – alimento e seres humanos – que se cruzam num prato à mesa. Onde pai ou mãe sentam com filho e ensinam o que comer, como e quando. Tudo com base no que aprenderam, no que viveram. Porque só podemos dar aquilo que recebemos. Alimento de origem é alimento de alma. Pra alma. Na calma que pedem os nossos tempos. Com pausa.