Já parou para pensar que a escola do seu filho pode ser tua também? Por que partir do pressuposto que escola “serve” apenas para ensinar as crianças? Não se deveria entender o processo de aprendizagem escolar como um processo de aprendizagem dos pais também? As perguntas são para fazer pensar mesmo e, quem sabe, tirar pais e mães da posição confortável de dizer “eu não tenho nada com isso”. Sinto, ou não, em lhe dizer que tem sim – e que bom que tem. O longo caminho escolar de um filho dá a possibilidade de autoconhecimento aos pais em diferentes frentes que a escola oferece.

Na antroposofia, quando se matricula um filho, tem-se o costume de dizer que a família foi matriculada também. Isto não está, necessariamente, ligada a alta demanda de tarefas manuais que os pais têm, mas sim ao envolvimento deles na pedagogia e no fazer acontecer da escola. É uma gestão colaborativa, em que os pais, junto à coordenadores, professores e tutores, são co-criadores daquela escola. E tenho certeza que isso não está apenas na pedagogia waldorf. Muitas – muitas mesmo – escolas começam porque pais se juntam e decidem que precisam abrir uma escola para ensinar seus filhos e as crianças daquela comunidade. E depois de alguns anos, quando tudo está estruturado, estes mesmos pais continuam lá, trabalhando para que outros filhos possam ter uma boa formação também.

Esse processo só é possível acontecer porque existe uma construção de relação que envolve confiança, entrega, parceria e empatia. Em palestra recente na escola Rudolf Steiner, a gestora Walkyria Machado, falou sobre o tema para pais e professores de diversas escolas. Com 25 anos de atuação em gestão de escola waldofs e não-waldorfs, 10 anos em gestão de escola pública de Nova York, Walkyria descreve com clareza as etapas que os pais passam quando matriculam um filho numa escola. E você, como ouvinte e pai/mãe, se encontra em várias delas.

A começar pelo entusiasmo quando se matricula um filho na escola. Aquela coisa de pai novo que tudo é empolgação. Dai vem a fase de adaptação quando você já entendeu a pedagogia da escola, como as coisas funcionam e pode ficar mais calmo e tranquilo com a escolha. É nessa fase que os pais começam a abrir os olhos para os pensamentos e os valores da escola. Será que o que eles falam é o que eu acredito? Será que os valores que eles ensinam são os mesmos que eu gostaria de ensinar a meus filhos? Se as respostas forem positivas é nesse momento em que os pais vão começar a levar mudanças de comportamento para dentro da rotina em casa. O que eu quero dizer com isso? Aquela história toda de fazer uma lancheira mais saudável provavelmente vai te levar a uma conscientização alimentar que antes você não tinha. E compartilhar desses ensinamentos é compartilhar de um aprendizado. Opa! Olha aí onde entra o aprendizado dos pais quando matriculam um filho numa escola.

É neste momento de total convergência, confiança e entrega que os pais se sentem à vontade para poder participar de mais atividades na escola. É quando assumem as famosas comissões e passam, junto a escola, a fazer parte daquele corpo docente que visa uma educação melhor aos filhos. A gestora Walkyria levantou um ponto muito interessante neste momento que é a importância dos pais se reconhecerem no caminho deste processo. “Saber qual o papel de pai na escola do seu filho dá a chance de os mesmos terem encontros diferentes com os professores”, fala. O que ela quer dizer com isso? Explico. A cena estereotipa do pai/mãe que vai tirar satisfação com a professora porque aconteceu algo com o filho nos serve de exemplo. A consciência do processo de aprendizagem, do seu papel como pai na escola, do seu auto reconhecimento, do sair do umbigo do filho e poder olhar o todo é se perceber como parte deste caminho de aprendizagem. É se perceber como aluno também. A escola aqui é para todos.

E cabe a nós, pais, fazer a escolha de irmos “ao encontro” da escola ou “de encontro”, como bem falou Walkyria. São duas escolhas: unir, convergir e congregar as descobertas e aprendizados x entrar em conflito, bater de frente. “O reclamar não é problema e isso é importante os pais perceberem. A escola não precisa, e não deve ser um mar de rosas, mas precisa ser de descoberta, de criar parcerias”. Uma união de pessoas que visa o mesmo objetivo. “É a hora em que o amor tem um estimulo de autodesenvolvimento que a gente quer que o educar seja transformador”, finaliza. Porque a escola é para você e não para seu filho. Aqui você se encontra matriculado. Benvindo!