Desassistência

Vamos dar vozes às nossas grávidas?

Por Joel Rennó

08/03/2017, 00h22

   

Estamos comemorando mais um Dia Internacional da Mulher, mas temos muito a festejar, principalmente no que tange à assistência e ao tratamento das milhões de mulheres grávidas com transtornos mentais?

Trabalho há mais de duas décadas na área de psiquiatria perinatal e observo que aqui a psicofobia (preconceito ou discriminação contra quem sofre de transtorno mental) é infinitamente superior a de outros períodos de vida da mulher. É mais fácil, conveniente, seguro e cômodo ignorar a doença mental na grávida do que avaliar com rigor e estudos bem embasados todos os riscos e benefícios do tratamento versus o não tratamento de transtornos mentais moderados e graves nessa população – e que são altamente prevalentes.

Hoje temos evidências científicas robustas de que uma doença mental não adequadamente tratada pode criar um ambiente hormonal hostil intraútero (ou prejudicar a nutrição e os cuidados pré-natais das mulheres) levando a alterações genéticas que se manifestam anos ou décadas mais tarde na forma de distúrbios neuropsiquiátricos que afetam saúde mental da prole -é o que denominamos de epigenética.

Portanto, se sabemos que muitas grávidas têm diagnósticos e tratamentos negligenciados e sofrem caladas porque nós não tomamos uma atitude? E esse desmazelo seria exclusividade apenas do Brasil e de outros países em desenvolvimento? Sob a égide de proteção da mulher ou gravidez totalmente segura (o que não existe em nenhuma condição no ciclo gravídico) nega-se, por vários fatores, até mesmo o direito ao tratamento de um transtono mental que atinge essa mulher grávida no periodo mágico de sua vida e que se transforma em uma experiência de muita dor e isolamento. E quando falo em tratamento não necessariamente precisa ser farmacológico, temos outros tratamentos eficazes com as psicoterapias interpessoal e cognitiva comportamental, além de estudos promissores envolvendo a estimulação magnética transcraniana- todos com eficácia comprovada. O tratamento escolhido dependerá da gravidade clínica de cada caso. Mas mesmo o tratamento medicamentoso, quando necessário, é possível em muitos casos, desde que haja uma avaliação médica rigorosa e detalhada de todos os aspectos da doença mental e dos riscos X benefícios do tratamento escolhido.

Em seguida, como exemplo, vou relatar a situação no Reino Unido. O atual relatório do Lancet, publicado agora a poucos dias da comemoração pelo Dia Internacional da Mulher.

Relatório sobre a saúde mental da mulher grávida do Reino Unido

Para celebrar o Dia Internacional da Mulher de 2016, o Colégio de Obstetras e Ginecologistas do Reino Unido lançou pesquisa para explorar as experiências das mulheres a respeito da saúde mental perinatal nos últimos cinco anos.

O Relatório, Saúde Mental Materna – Vozes das Mulheres”, amplifica as vozes de mais de 2300 mulheres grávidas.

Uma em cada cinco mulheres sofre de problemas de saúde mental durante a gravidez ou no prazo de um ano após o parto- sendo que muitas dessas mulheres não tinham problemas psiquiátricos prévios.

Entre 2012 a 2014, um quarto de todas as mortes maternas no Reino Unido ocorridas entre 6 semanas e 1 ano após o parto foram relacionadas às doenças mentais, sendo o suicídio a principal causa de morte materna direta.

Apesar da necessidade urgente de apoio, o relatório descreve graves inconsistências nos cuidados de saúde mental perinatal no Reino Unido.

Na pesquisa, as mulheres falaram sobre não terem informações suficientes sobre a saúde mental perinatal por parte dos profissionais que as assistiam que não investigavam tais sintomas em suas rotinas.

A normalização do baby blues (sintomas depressivos e ansiosos leves no pós-parto de curta duração e autolimitados) pode colocar o ônus do diagnóstico sob a responsabilidade das incautas mulheres como se elas tivessem a obrigação de pedir ajuda; já as mulheres com sintomas depressivos mais severos se sentiam intimidadas a pedir ajuda pelo grande estigma enfrentado em uma sociedade ainda preconceituosa e desinformada- inclusive parte desse segmento composto até por alguns profissionais da saúde também.

De fato, 55% das mulheres que tiveram problemas de saúde mental não foram encaminhadas para serviços especializados ou sequer aconselhadas sobre quais organizações para entrar em contato em caso de necessidade urgente.

Apenas 7% foram encaminhadas, sendo que algumas esperaram um ano para serem avaliadas e outras nunca foram. O longo tempo de espera obrigou grande parte dessas mulheres a buscarem ajuda privada. Para piorar ainda mais a situação de precariedade, houve pouco consenso entre os médicos sobre o uso de medicamentos durante a gravidez e a amamentação.

Publicado a exatamente a duas semanas antes do Dia Internacional da Mulher(08/03/2017)- esse relatório deixa claro a disparidade entre os cuidados da saúde física e mental perinatal no Reino Unido, com várias lacunas existentes nesse Setor em um país desenvolvido. Essas discrepâncias não podem ser mais aceitas em nenhum país do Planeta Terra, inclusive no Brasil onde convenhamos que a Saúde Pública, no geral, em todo o território costuma ser um caos.

Não há mais espaços para que as vozes dessas mulheres sofredoras em todo o mundo sejam sufocadas pela desinformação e preconceitos reinantes em diferentes sociedades e culturas. E essa é uma luta que precisa ser assumida por toda a sociedade e não apenas pelas mulheres.

Feliz Dia das Mulheres! Vocês são guerreiras.

FONTE: www.thelancet.com

 

 

Comentário(s)

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.