Vivemos em uma era perigosa de abuso, com ou sem orientação profissional, de drogas lícitas, todas atuantes na esfera do SNC (Sistema Nervoso Central).

Muitas dessas pessoas sequer sabem exatamente o que tomam e quais os riscos envolvidos e colocam a sua integridade e saúde ao acaso da sorte.

Há drogas neuropsiquiátricas aprovadas para depressão, transtorno de pânico, transtorno bipolar do humor, narcolepsia (distúrbio do sono), transtorno de déficit atencional, entre outros, sendo absurdamente utilizadas por homens e mulheres para diferentes finalidades como: melhorar a capacidade de memorização e atenção (smart drugs para incrementar a inteligência), inibir a compulsão alimentar e apetite, melhorar o desejo sexual feminino – que é complexo e multifatorial- e até em fórmulas de emagrecimento rápido e miraculoso.

Recebo em minha prática diária muitas pacientes com graves distúrbios neuropsiquiátricos e doenças clínicas desencadeadas pelo uso desenfreado e sem critérios de tais medicamentos. Psicotrópicos mal indicados e com super dosagens, mesmo que prescritos por médicos, podem causar irritabilidade, ansiedade, alterações de humor, psicoses, pânico, convulsões, arritmias, além do risco sério de dependência física e psicológica.

Agora as bolas da vez são as ”smart drugs” utilizadas por executivos, médicos, estudantes universitários e outros para turbinar a inteligência e compostos basicamente por derivados anfetamínicos ou psicoestimulantes e o tal “viagra feminino”, a flibanserina, uma espécie de antidepressivo que atua em dois mensageiros químicos cerebrais como a noradrenalina e a dopamina e que promete aumentar o desejo sexual feminino. Esse tal viagra foi na realidade um medicamento desenvolvido (e fracassado) para o tratamento da depressão.

As evidências científicas, para ambas, são frágeis no momento e o interesse mercadológico parece ser o principal fator. Não há aprovação do uso de psicoestimulantes como drogas para incrementar a inteligência, os trabalhos científicos são até contraditórios ou inconclusivos, enquanto que o viagra feminino foi aprovado pelo FDA com trabalhos demonstrando uma diferença irrisória em relação ao placebo (droga inócua, uma espécie de pílula de farinha sem o princípio ativo).

Além da eficácia contestada, ainda temos os efeitos colaterais sérios. Os psicoestimulantes podem causar dependência e desencadear vários distúrbios neuropsiquiátricos mesmo em pessoas normais, além de oferecerem riscos cardiovasculares sérios em algumas pessoas. Já o badalado viagra feminino pode causar desmaios importantes e levar a danos perigosos caso a mulher cometa o pecado de ingerir álcool. E que mulher não costuma usar álcool em um momento especial?

Portanto, fica dado o alerta às pessoas que precisam tomar muito cuidado com as fontes de informações a respeito das drogas legais utilizadas para outros fins ou com aprovações recentes questionáveis como foi essa do FDA para a flibanserina. E que questionem inclusive alguns profissionais médicos que em certos momentos prescrevem também tais drogas a pessoas indefesas sem os devidos esclarecimentos objetivos e claros. Conheço muitas mulheres que tomam várias medicações psiquiátricas para emagrecimento, em uso “off label” (fora da indicação da bula) e sequer foram corretamente informadas sobre os respectivos componentes de tais fórmulas e seus riscos. O acesso à informação correta e precisa é de fato um direito de todos os pacientes e isso deve ser cobrado dos profissionais porque os danos à saúde podem ser irreparáveis e até irreversíveis.