O conceituado tenista norte-americano Mardy Fish fez um depoimento surpreendente, agora em setembro, sobre sua vida pessoal durante o US Open de Nova York. Escancarou ao mundo seu sofrimento decorrente das batalhas contra um adversário muito mais temido do que Roger e outras feras do Circuito Mundial do Tênis: a ansiedade.

Alertou a todos ao relatar, corajosamente, sobre a sua história de vida dos últimos 6 anos onde seus sintomas de ansiedade o envolveram em uma espécie de espiral crescente e incontrolável justamente quando sua carreira engrenou após uma série de mudanças em dietas, rotina de treinamentos e dedicação- chegando até a estar entre os 8 melhores tenistas do mundo. Embora a ansiedade atinja 1 em cada 5 pessoas de forma mais intensa, raramente é diagnosticada no início, as pessoas a confundem com estresse do cotidiano onde metas profissionais cada vez mais elevadas vão sendo impostas por terceiros ou por nós mesmos. E como doença mental infelizmente ainda é considerada apenas para os fracos, todos evitam se aprofundar no assunto, de forma consciente ou inconsciente.

Na nova classificação do DSM-5 (Manual Diagnóstico dos Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana) o capítulo sobre transtornos de ansiedade reúne um grupo de apresentações nas quais a ansiedade, o medo e esquiva fóbica são proeminentes. Entre os diagnósticos psiquiátricos mais prevalentes, esses transtornos também podem estar entre os mais difíceis de se diagnosticar principalmente em homens que costumam minimizar os sintomas. Imaginem como um homem e atleta de alta performance como o Mardy Fish se sentiria constrangido ao admitir publicamente sua “fraqueza”, como ele mesmo diz, em um universo onde a obrigação é ser “mentalmente durão”. E temos ainda o fato de que a ansiedade, o medo e a esquiva são respostas normais e adaptativas em muitas situações, levando a uma ambiguidade inevitável na avaliação de indivíduos com sintomas leves – mas que podem evoluir ao longo do tempo – como aconteceu com o tenista.

As emoções relacionadas à ansiedade podem ser vivenciadas mais proeminentemente como sintomas somáticos. O medo- uma reação normal a uma ameaça iminente real ou percebida- está quase sempre associado à hiperexcitabilidade do sistema nervoso autônomo; essa hiperexcitabilidade pode ser difícil de ser identificada ou descrita pelos pacientes. De modo semelhante, a ansiedade- experiência emocional de medo não acompanhado por uma ameaça evidente- pode ser sentida como um tensão muscular e um estado de alerta, os quais podem se integrar imperceptivelmente ao pano de fundo da situação em que se encontra alguém com nível de ansiedade cronicamente elevado.

Uma terceira complicação é que os transtornos de ansiedade costumam ser associados a outros transtornos como transtornos de humor e da personalidade, o que pode dificultar a observação adequada das manifestações de cada diagnóstico.

Apesar dos vários avanços, o campo da psiquiatria ainda não está próximo da descoberta das causas de tais transtornos de ansiedade. Há evidências científicas fortes da presença de componentes biológicos e psicossociais envolvidos. Porém, o tratamento psiquiátrico atual é eficaz e realizado basicamente com antidepressivos e psicoterapia cognitivo-comportamental (que visa à mudança de pensamentos disfuncionais e de comportamentos de esquiva fóbica além de associar a técnicas de respiração abdominal que aliviam os sintomas ansiosos ou ataques de pânico na crise aguda) que alcançam resultados favoráveis em um ou dois meses e devem ser mantidos por um tempo prolongado sendo que a duração depende da gravidade de cada quadro clínico individual avaliado pelo psiquiatra. O tratamento se justifica quando há perda da funcionalidade da pessoa nas atividades cotidianas, sofrimento psíquico e prejuízo da qualidade de vida.

O tão terrível pânico, que além de vários sintomas somáticos (palpitações, sudorese, formigamentos pelo corpo, sensação de nó na garganta com falta de ar ou sufocamento, náuseas, diarréia, tremores e outros), vem acompanhado de um medo terrível de morrer ou perder o controle – o que no início leva várias pessoas a pronto-socorros a fim de descobrir a causa desse grande mal estar. Pelo atual DSM-5, entende-se que os ataques de pânico ocorrem como parte de um amplo espectro de diferentes diagnósticos psiquiátricos e não apenas do Transtorno de Pânico (uma pessoa com depressão ou ansiedade generalizada pode ter ataques de pânico no curso da doença). Quando ataques de pânico persistentes induzem um temor contínuo e significativo de ocorrência de mais ataques, o transtorno de pânico é o diagnóstico mais provável. Segundo Mardy Fish, tudo piorou quando ele teve a primeira crise de pânico na quadra de jogo – antes os ataques se restringiam à vida externa apenas e os jogos eram enfrentados normalmente sem medo. A partir desse momento, imaginem os pensamentos e somatizações que esse atleta vivenciava, de forma antecipatória, toda vez em que tinha que enfrentar um jogo decisivo de grande SLAM.

Muitos transtornos de ansiedade costumam dar os primeiros sinais no início da infância ou mais tarde na adolescência e os pais devem estar atentos. Adolescentes ansiosos costumam ter rendimento escolar menor e serem mais suscetíveis ao uso abusivo de álcool e drogas para efeito “anestésico” da dor da alma ou controle da agitação e medo.

Pessoas com traços de personalidade como rigidez, autoestima baixa, perfeccionismo, autocobrança excessiva, baixo limiar à frustração e que tiveram exemplos domésticos de convivência com familiares ansiosos podem ser mais vulneráveis ou predispostas. No início, onde os quadros de ansiedade costumam ser leves, técnicas de relaxamento ou meditação, psicoterapia cognitivo-comportamental e atividades esportivas podem ser fundamentais no auxílio da melhora impedindo, em muitas situações, a evolução para quadros mais graves no futuro. Até mesmo o exercício da espiritualidade, mudanças de rotina de vida e atitudes altruístas podem ajudar no alívio nesse estágio inicial.

O estresse ocupacional, o cenário econômico instável e a violência doméstica ou urbana de determinados países funcionam como “gatilhos” de muitos transtornos de ansiedade também. Vivemos em uma era de imprevisibilidade e insegurança, onde as cobranças e pressões crônicas diárias, além dos desafios e competitividade exacerbados e até desleais são potentes gatilhos. As pessoas vão se envolvendo sem perceber o alto nível de prejuízo à saúde que isso provoca em poucos anos. Mardy Fish se indagou porque esses ataques de pânico ocorreram justamente no momento de maior sucesso de sua carreira e uma de suas hipóteses foi a de um estresse subjetivo gerado por exigências de uma alta perfomance cada vez maior e sem limites. Antes ele queria estar entre os 10 melhores do mundo, depois entre os 8 e assim sucessivamente- o resultado se tornou uma obsessão.

Precisamos, por fim, desmistificar o conceito errôneo de que os transtornos mentais só atingem os “fracos”. Como diz o tenista Mardy Fish enfrentar a doença mental é uma prova de força. Há vários fatores envolvidos na etiologia, incluindo os biológicos, psicológicos e até sociais e a complexa interação entre eles pode dar resultados inesperados ou imprevisíveis. Qualquer um de nós pode sofrer de transtorno de ansiedade ao longo da vida porque o que difere é apenas o limiar de cada pessoa para o desencadeamento da doença.