Sob a égide do vale tudo em obras de ficção científica, a novela “O Outro Lado do Paraíso” da TV Globo vem tratando de temas  das áreas de psicologia e psiquiatria de forma extremamente superficial e inconsistente. E a cada dia se supera em mediocridade e falta de embasamento para o tratamento de assuntos complexos.

Primeiramente, apresentaram a psiquiatria atual como se ainda tivéssemos os terríveis manicômios com tratamentos desumanos e mostrando um procedimento médico como a ECT (eletroconvulsoterapia) -usado com segurança e vários cuidados anestésicos, clínicos e humanos nos dias atuais -, de forma dantesca, literalmente a seco. A ECT é um tratamento extremamente seguro, eficaz e aprovado em protocolos médicos internacionais para quadros graves de depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia. E para piorar o psiquiatra da trama agiu de forma corrupta até roubando drogas psicotrópicas do hospital onde trabalha para simular um quadro psicótico na mocinha da história e fez um laudo médico falso. Isso tudo em uma área muito estigmatizada e repleta de preconceitos e desinformações que é a área de psiquiatria.

Agora colocaram erroneamente o coaching (que eu respeito) como sendo uma técnica que poderia ajudar a diagnosticar e tratar até traumas psicológicos sérios como o do dramático abuso sexual infantil. E na trama as sessões foram realizadas por uma advogada que através da hipnose levou uma jovem às memórias de abuso por parte do padrasto. Simples assim em um passe de mágica….

No início dos anos 80, uma série de crimes chocou os EUA. Dezenas de mulheres começaram a relatar abusos sexuais sofridos na infância. Essas lembranças sempre afloravam no consultório de algum psicólogo, depois que as moças tinham passado por sessões de terapia com técnicas de hipnose e regressão. O FBI resolveu investigar o caso e descobriu que os abusos eram falsas memórias, que haviam sido acidentalmente induzidas por psicólogos durante sessões de hipnose. As memórias falsas  podem ser induzidas inclusive por profissionais da psicologia – imaginem por um coach que geralmente nem tem formação na área de psiquiatria ou psicologia.

A memória não é um registro da realidade – é uma interpretação construída pela mente. O nosso cérebro inventa o mundo, das cores que a gente vê às experiências que a gente vive. E edita essas informações antes de gravá-las. Cientistas da Universidade Harvard descobriram que os mecanismos que usamos para acessar nossas memórias são os mesmos que usamos para imaginar as coisas. Uma pessoa pode ter lembranças erradas ao ler o que está gravado corretamente na sua memória.

Todos nós temos lembranças falsas ou distorcidas.  Já que a memória e a imaginação usam os mesmos mecanismos, a mente não vê problema em dar uma inventadinha para completar as lacunas.

Bizarro foi ver que as lembranças suscitadas em apenas uma ou duas sessões de hipnose nessa condição foram suficientes para levar à acusação de pedofilia contra o padrasto com denuncia imediata à Delegacia para punir o agressor.

Entendo que uma ficção científica não tenha compromisso com a realidade, mas quando uma teledramaturgia se propõe a discutir temas sociais e da área de saúde complexos uma ampla e detalhada pesquisa ou consultoria precisa ser realizada. E muitos telespectadores se baseiam nas “verdades” ditas pelas novelas que acabam implementando conhecimentos médicos sérios de forma totalmente distorcida. Aí torna-se um desserviço e muitas novelas globais, ao contrário da atual, já receberam inclusive prêmios internacionais relevantes por uma pesquisa embasada dentro de temas da área de saúde mental. Vale a reflexão e a correção dos rumos errados até aqui.