A internação compulsória de dependentes ou usuários de crack da Cracolândia de São Paulo tem causado uma série de debates calorosos na imprensa e nas Redes Sociais. Segundo a Fiocruz, temos 370 mil usuários de crack nas grandes capitais do país. É um número expressivo mas não indicativo de uma epidemia como muitos alardeiam.

Diga-se de passagem que essa modalidade terapêutica de internação compulsória pode ser um recurso necessário e importante em alguns casos específicos de dependência a fim de salvaguardar a saúde física e mental das pessoas. Quem trabalha com saúde mental, sabe que a capacidade de ajuizamento do pensamento ou crítica a respeito de si mesmo ou da doença podem estar alterados em muitos quadros psiquiátricos por um período. Portanto, posições reducionistas e debates polarizados, favoráveis ou contrários, devem ser evitados. Vamos parar de discussões ideológicas e nos calcarmos mais em evidências clínicas e científicas!

Não se trata de ser a favor ou contrário à internação compulsória e sim de ver, com isenção,  qual a modalidade de tratamento mais indicada para um determinado momento do paciente avaliando-se todos os riscos envolvidos à integridade individual e social das pessoas. Embora os transtornos mentais jamais aumentem a violência e agressividade quando bem tratados, em algumas situações há essa possibilidade sem dúvida, principalmente quando as pessoas estão sob efeito das drogas onde o número de delitos e riscos de auto e heteroagressão podem aumentar.

Sou a favor da internação compulsória, portanto, em casos seletos e desde que haja legalidade através de ações do Ministério Público e Defensoria que com certeza estudarão caso a caso tal necessidade. Outro detalhe que não pode ser esquecido jamais: para quais instituições credenciadas essas pessoas serão levadas? Haverá trabalho multidisciplinar adequado a todas elas? O Estado precisa se responsabilizar pelo nível técnico e humanitário de tais internações e não simplesmente usar tais locais como uma espécie de depósito. Hoje sabemos, por uma série de fatores, da precariedade e da carência de recursos nas instituições de internações psiquiátricas no nosso país. E o número delas, por culpa de um modelo antimanicomial distorcido em determinados aspectos, é bem limitado também.

Falando especificamente sobre o Crack, percebemos que o potencial de dependência, embora existente e real, não é dos mais elevados. O cigarro tem maior potencial de dependência, embora o crack seja obviamente muito mais devastador no curto e médio prazo. Atinge predominantemente pessoas vítimas de pobreza (geralmente negros ou mestiços), excluídos socialmente e vítimas de violência ou desagregação familiar. É inquestionável que muitas dessas pessoas são fruto do descaso das autoridades públicas com a educação e saúde. Portanto, além de questões biológicas envolvidas na vulnerabilidade à dependência ao crack e outras drogas temos aí um doença decorrente das mazelas relacionadas às políticas públicas sociais, educacionais e de saúde de diversos países pobres. Cria-se, nesse hiato, uma ótima janela de oportunidade aos traficantes que acabam explorando a desgraça alheia em grande parte gerada por um Estado omisso.

Nossos impostos são infelizmente pouco utilizados em prol do ser humano, politico corrupto é um criminoso porque ceifa vidas humanas ao desviar dinheiro publico de áreas prioritárias e isso deveria ser considerado no Brasil crime hediondo e sem essa história de foro privilegiado. Portanto, uma ampla renovação política no país pode sim melhorar essas questões relacionadas à dependência do crack em todo o Brasil.

Que alternativas ou reforços positivos oferecemos às vítimas de crack para que elas não precisem fugir de suas terríveis realidades e conflitos e encontrem amplo respaldo para se reabilitar? Não adianta apenas a internação compulsória. O dependente de crack precisa de um cuidado e respaldo dentro de um Programa Individualizado e Amplo de reabilitação através do oferecimento de recursos gerais para que eles se reconstruam como cidadãos em primeiro lugar.

Portanto, na minha modesta opinião, precisamos deixar de analisar essas questões de forma emocional e adotarmos critérios objetivos – com uma análise científica e social mais amplas. E quem será o politico ou administrador capaz de enxergar a situação por esse prisma tomando atitudes desse naipe que realmente venham para minimizar ou resolver o problema?