Nesta época do ano, além de compras frenéticas, compromissos sociais e organização de festas, tem muita gente com a atenção voltada para as tão sonhadas férias do trabalho, vistas como um bálsamo para aliviar a carga de uma rotina cheia de compromissos e correria ao longo do ano. As queixas de estresse elevam-se, as pessoas se sentem exauridas e até ansiosas pelos inúmeros estímulos. Impressionante como alguns de meus pacientes me relatam uma espécie de medo ou insegurança sobre o que fazer durante as férias e ficam receosos sobre o retorno, entram em pânico ao imaginar que podem até perder o emprego após o merecido descanso. Algumas pessoas, mesmo em lugares paradisíacos, não conseguem relaxar, sentem-se pilhadas e ficam hipervigilantes o tempo todo – através de e-mails, facebooks ou celulares.

Digo aos meus pacientes que a busca do equilíbrio deve ser realizada ao longo de todo o ano e não apenas no período de férias. O comportamento, nesse período específico, pode refletir a forma como a pessoa se relaciona e interage com o mundo ao seu redor.

Impressionante que algumas famílias até se queixam do ritmo alucinante empreendido durante as férias pelo chefe de família, com excesso de obrigações e horários preenchidos por compromissos exaustivos, refletindo a maneira de funcionar na empresa que comanda ou trabalha.

Observo que dificilmente as pessoas conhecem seus limites, algumas até se sentem culpadas em períodos de férias ou descanso, sempre com a sensação de que estão deixando de cumprir uma obrigação do trabalho – até levando tarefas para os momentos de lazer a fim de aliviar a culpa pelo “abandono” de suas obrigações trabalhistas ou medo de perder o emprego em um país que vive grave crise econômica. O próprio preparo paras as férias e as situações encontradas durante as mesmas (aeroportos lotados, extravio de bagagens) podem ser de grande impacto estressor para pessoas excessivamente detalhistas, inseguras, centralizadoras e perfeccionistas.

O perfil de personalidade, portanto, pode influir. Há pessoas com personalidade agressiva e competitiva, que não sabem trabalhar com frustrações, limitações, independentemente do ambiente. São pessoas que aprenderam a se relacionar com base na cobrança, na disputa, e estas vão ter maior dificuldade para o relaxamento.

Não minimizo jamais o fato de que vivemos em uma rotina de trabalho realmente massacrante nos dias atuais, com excesso de metas, cumprimento de jornadas de trabalho desumanas e até deslealdade ou assédio moral corporativos. Grande parte dos profissionais que entram em estado de exaustão ou “burnout” queixam-se dos aborrecimentos do meio corporativo causados pela artificialidade dos relacionamentos como principal causa de desgaste emocional. O medo de tirar férias é frequente nas pessoas que eu atendo, temem ser traídas e perder os empregos. E durante o ano inteiro vão se submetendo a rotinas extenuantes e agressivas por medo de perder o trabalho. Algumas empresas também estimulam uma competitividade predatória como forma de estimular a produtividade o que é um conceito arcaico e em desuso. Chefes autoritários e centralizadores também levam a um estresse severo de toda a equipe e isso vai contra a criatividade, felicidade e produtividade dos seus subordinados.

É importante que não ocorram pré-julgamentos sem conhecimento de causa. Sempre é preciso saber o motivo da amargura. A pessoa pode estar passando por um momento sério de depressão ou ansiedade, causadas por uma perda real ou simbólica, ou sofrer de uma forma crônica de depressão leve, a distimia. No passado, eram os chamados de rabugentos ou mal humorados.

Oriento as pessoas a não perderem o foco e o controle sobre suas próprias vidas. Canso de ver pessoas que viveram o trabalho intensamente, 24 horas por dia, por muitos anos, que adoeceram física e mentalmente e depois acabaram sendo descartadas como objetos pelas suas empresas quando já não tinham a mesma capacidade produtiva.

É fundamental que mesmo durante o trabalho os profissionais permitam-se momentos de descontração ou lazer, de quebras de rotina e acima de tudo que saibam colocar os limites para si mesmos e para os seus chefes de forma respeitosa. Muitos jovens já buscam empresas com o perfil de valorizar projetos globais de desenvolvimento de seus executivos mesmo que paguem salários mais baixos. Já se foi o tempo de haver prioridade apenas aos altos salários e bônus – além da mentalidade arcaica de que a empresa privilegia apenas os que se sacrificam integralmente em prol do cargo que ocupam. É fundamental que cada ser humano busque o seu próprio ponto de equilíbrio.

Promessas de Ano Novo

Entra ano, sai ano é a mesma coisa. A mudança de calendário motiva projetos e promessas que, na maioria das vezes, não saem do campo das intenções. A pessoa pode até sentir-se frustrada ao relançar a mesma meta para o próximo ano, mas se o desejo não for acompanhado de atitude e reflexão o mais provável é que nada mude.

Toda pessoa com condições materiais minimamente satisfatórias tem condição de ser feliz . Para traçar e viabilizar metas de vida o primeiro passo é se conhecer bem e viabilizar projetos segundo seus potenciais Não adianta projetar metas inatingíveis para o próximo ano. Procure saber o que satisfaz você em primeiro lugar e o que está dentro da sua realidade, fugindo dos modelos impostos por uma sociedade consumista, individualista, que raramente considera as peculiaridades de cada um.

Todos precisamos aprender a aceitar que as mudanças vêm com ganhos e com perdas também. Muitos ficam andando em círculos, fazendo mil projetos que efetivamente não conseguem concretizar e não criam condições para que o projeto se torne exequível. Oriento meus pacientes a começarem com metas menores, não entrando no jogo da sociedade, que é muito comparativa. Vivemos em uma era de vulnerabilidade do indivíduo, que se sente impotente, sem referencial, comparando-se à performance de outras pessoas. É uma imposição de fora para dentro, não são anseios oriundos do seu mundo interno. Isto é o que leva muita gente a sofrer de depressão, síndrome do pânico e outras doenças.

Eu sempre acredito no potencial de transformação do indivíduo, seja em qual ciclo da vida estiver, mas admito que quanto mais precocemente a mudança for trabalhada, melhor. Alguns padrões de comportamento mais patológicos podem ficar cristalizados. A pessoa mais velha já estabeleceu uma relação com ela e o mundo ao redor, está acomodada e até com medo do que possa vir acontecer caso mude. Realmente é preciso muita coragem, determinação e capacidade para elaborar as quedas que acabam ocasionando o processo de mudanças. Mas podemos sempre reconstruir nossa historia de vida, ressignificando nossas experiências.