A depressão tem sido considerada na atualidade uma doença crônica. Isso implica em dizer que grande parte dos pacientes precisará tomar antidepressivo por tempo prolongado ou até pelo resto de suas vidas.

As mulheres da América Latina têm uma forte crença de que antidepressivo aumenta o peso, embora reconheçam que o tratamento medicamentoso da depressão seja importante e necessário. Muitas mulheres quando chegam aos consultórios dos psiquiatras brasileiros temem dois efeitos colaterais possíveis dos antidepressivos: perda de libido e aumento do peso. Somados, esses dois temores abrangem mais de 90% das mulheres entrevistadas pelos médicos – se indagadas a respeito do assunto.

Cerca de 45% das mulheres brasileiras acreditam que o antidepressivo aumenta o peso e nos questionam bastante. Se avaliarmos as causas de abandonos de tratamentos observamos que 70% das pacientes desistem porque não acreditam na eficácia do antidepressivo na melhora da depressão e 30% porque acreditam que o antidepressivo é o possível vilão do aumento do peso.

Na minha prática clínica, realmente, tal preocupação justa das mulheres é confirmada. Muitas já vêm ao meu consultório com medo e angústias relacionadas a tal “possibilidade”. Relatam-me: “Dr, eu não tenho receio de tomar remédio, acho que o tratamento é fundamental, porém, se eu inchar ou engordar vou abandonar o tratamento, tenho uma amiga que tomou antidepressivos por vários anos e engordou dez quilos”.

Antidepressivo X Aumento de Peso é uma área complexa, com muitas informações contraditórias.

Todos os médicos devem ter um conhecimento geral sobre tal tema, já que o uso de antidepressivos é muito comum na população de mulheres não apenas deprimidas e ansiosas, mas para uma outra série de condições clinicas como TPM (tensão pré-menstrual), dores crônicas (como fibromialgia e cefaléia), compulsão alimentar, alterações do sono, etc.

Dos usuários de antidepressivos, 70% são mulheres.

O primeiro conceito é que a depressão é uma doença que pode levar a mudanças no peso influenciadas por fatores específicos da doença como alterações no apetite e na atividade física ou pelo uso de antidepressivos.

A análise dos estudos indicou que a mudança de peso atribuída ao tratamento com antidepressivos apresenta resultados controversos, sendo influenciada por fatores como o tempo de uso e dosagem do medicamento.

Porém, não podemos nos esquecer que a prevalência da obesidade em pacientes psiquiátricos tratados farmacologicamente (não apenas deprimidos, mas esquizofrênicos, bipolares, etc….) é 2 a 5 vezes maior do que na população geral.

A medicação pode levar ao aumento do peso durante a fase de manutenção.

Grupos de antidepressivos

De forma didática e básica, vamos organizar os antidepressivos em três grupos:

1) antidepressivos tricíclicos, mais antigos, como clomipramina, imipramina, amitriptilina, entre outros (ADT);

2) antidepressivos serotoninérgicos, que regulam a serotonina como a fluoxetina, sertralina, citalopram, escitalopram e paroxetina (ISRS);

3) antidepressivos de nova geração, com outros mecanismos de ação como a bupropiona, a mirtazapina, a venlafaxina, a desvenlafaxina e a duloxetina (ANG).

Por que antidepressivo age no aumento de peso?

Pode haver vários mecanismos psicofarmacológicos responsáveis pelo aumento do peso devido à ação direta dos antidepressivos:

1) Diminuição do neurotransmissor dopamina no hipotálamo que aumenta o apetite;

2) Diminuição da estimulação do receptor de serotonina 5HT2C;

3) Diminuição da estimulação do receptor histaminérgico H1, que leva a uma insensibilidade à ação da leptina (a leptina, do grego leptos = magro, é uma proteína secretada por adipócitos e que age no sistema nervoso central (SNC) promovendo menor ingestão alimentar e incrementando o metabolismo energético, além de afetar eixos hipotalâmico-hipofisários e regular mecanismos neuroendócrinos) que causa aumento da procura de alimentos e aumento de peso;

4) Diminuição da estimulação do mensageiro químico cerebral acetilcolina (neurotransmissor). É um dos fatores que podem contribuir para o aumento de peso, junto com os outros relatados.

Até pouco tempo atrás, paradoxalmente, os antidepressivos serotoninérgicos como a fluoxetina e a sertralina possuiam um papel coadjuvante ao tratamento antiobesidade – segundo o Consenso Latino-Americano de Obesidade e o Consenso Brasileiro de Diabetes. Felizmente, isso caiu por terra, já que o emagrecimento ou perda de peso inicial, geralmente pela diminuição do apetite provocada no início do tratamento, não se mantém, pelo contrário, no longo prazo pode haver até um aumento pequeno de peso.

Com relação aos ADT há ganho de peso durante o tratamento agudo (6 semanas iniciais). No período de manutenção, observa-se também aumento de peso corporal, porém, sem diferenças em relação ao grupo controle em alguns estudos.

O ganho de peso é muitas vezes relatado como resultado da melhora do quadro depressivo pelo uso da droga, levando a mudanças no apetite e não, simplesmente, decorrente de um efeito colateral da medicação.

Quanto aos serotoninérgicos (ISRS), a perda de peso costuma ocorrer nas primeiras seis semanas de tratamento, devido à diminuição do apetite. No longo prazo, a mudança de peso parece ser o oposto, com ganho de peso que nem sempre é relacionado ao efeito colateral da droga, mas à recuperação da depressão.

É importante ressaltarmos que dentro de uma mesma classe, como por exemplo, os antidepressivos serotoninérgicos ou tricíclicos, certas drogas apresentam maior risco de mudança de peso que outras. Entre os serotoninérgicos, nitidamente a paroxetina aumenta o peso mais que a fluoxetina e a sertralina, com ganho ponderal acima de 7% em relação ao peso. Em um grande estudo de metanálise, de 54 semanas de duração, a sertralina não foi diferente do placebo (substância inócua, uma pílula de farinha) em relação ao ganho ponderal.

Quanto aos antidepressivos de nova geração (mirtazapina, bupropiona, venlafaxina, desvenlafaxina e duloxetina) temos também diferenças importantes entre as drogas. Enquanto, por exemplo, a bupropiona, a desvenlafaxina e a venlafaxina são neutros, a mirtazapina não é, levando sim ao aumento de peso no tratamento de manutenção, até com ganho ponderal acima de 7%.

Portanto, ao analisarmos se o antidepressivo é o único responsável pelo aumento de peso em mulheres em terapêutica antidepressiva, temos que analisar, com cuidado, os múltiplos efeitos dos antidepressivos na mudança de peso corporal e as dificuldades ainda existentes em obter uma conclusão definitiva sobre esta importante questão que envolve o tratamento. Já que muitas mulheres simplesmente abandonam o tratamento antidepressivo por esta questão prioritária em suas vidas e nem sempre são adequadamente informadas e orientadas de todos os aspectos envolvidos, até com os cuidados nutricionais e atividades físicas que devem fazer parte do tratamento.