Como os estudos conflitantes sobre o risco malformações em filhos de mulheres que usam antidepressivos durante a gravidez continuam a ser publicados, alguns especialistas dizem que é importante comparar o risco de exposição à medicação com o risco de exposição à doença psiquiátrica materna não tratada.

“Muitos desses estudos [explorando a associação entre antidepressivos e malformações congénitas nos recém-nascidos] resultaram em manchetes sensacionalistas quando houve resultados positivos”, diz Jennifer L. Payne, MD, diretora do Centro de Transtornos de Humor da Mulher da Johns Hopkins School of Medicine (EUA), em recente coluna para o Psychiatric News. “No entanto, há uma série de limitações nesses estudos que, quando tomado em conta com outros estudos, resultaram em resultados negativos que parecem não serem atraentes para as manchetes de jornais e revistas.

A principal limitação de estudos que tentam examinar os riscos de exposição in utero de antidepressivos, é que eles não conseguem controlar os fatores associados com a doença psiquiátrica. Por exemplo, diabetes, obesidade, tabagismo e uso de drogas são mais comuns em pacientes com história de depressão do que na população geral de mulheres grávidas.

“Estudos que não controlaram a doença psiquiátrica subjacente e os riscos inerentes podem encontrar associações entre antidepressivos e resultados danosos que não são causados ​​pela exposição à medicação em si, mas pela presença de outros fatores de risco que são altamente prevalentes na população de pacientes que tomam antidepressivos durante a gravidez “, escreveu Payne, antes de descrever vários estudos que sugerem que a associação entre antidepressivos e anomalias cardíacas é provavelmente secundária a outros fatores de risco subjacentes em mulheres com depressão.

A depressão não é uma doença benigna para a mãe ou criança que pode ser ignorada e não tratada durante a gravidez, Quando considerado como um todo, a literatura suporta o uso de antidepressivos na gravidez nos casos apropriados.

Na maioria dos casos, os benefícios do tratamento da depressão materna superam os riscos mínimos e raros de exposição in utero aos antidepressivos .

Na minha prática clínica de mais de 20 anos em saúde mental da mulher no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, assisto frequentemente a um show de horrores de mulheres grávidas deprimidas sendo massacradas por desinformações ou informações tendenciosas da imprensa,  familiares e até de profissionais da saúde – sofrendo de uma restrição absurda ao seu legítimo direito de tratamento de um quadro psiquiátrico importante, por exemplo, de depressão ou Transtorno de Pânico – como se ainda estivéssemos vivendo em uma era primitiva sem recursos. Claro que qualquer medicação na gravidez tem que ser prescrita por um psiquiatra competente e através de uma decisão compartilhada com a mulher e seu companheiro e com todos os riscos e benefícios apontados. Mas, por outro lado, os prejuízos médicos, familiares e pessoais de um transtorno mental não tratado na gravidez podem ser também muito sérios e definitivos e daí quero ver quem se responsabilizará.