São crescentes os estudos e pesquisas que têm como assunto central as crenças e práticas religiosas, especialmente, aqueles que refletem sobre os prováveis benefícios dos aspectos religiosos, ou seja, nos quais a espiritualidade é observada como um respeitável mecanismo de enfrentamento. Sendo que, em alguns momentos a espiritualidade e/ou religiosidade são compreendidas como instrumentos que auxiliam o indivíduo na disposição para lidar com o processo de adoecimento físico e mental, através do aumento do apoio social e da não implicação em condutas autodestrutivas. Entretanto, apesar do aumento do interesse por essa temática, o coping* religioso ainda se defronta com uma sub-representação no campo do saber científico. Cabe ressaltar, que esta área de pesquisa pode contribuir para o surgimento de novos desenhos de intervenções psicoterapêuticas que considerem especialmente, a subjetividade e a particularidade dos indivíduos em contexto de adoecimento físico e mental.

Os principais estudos relacionados ao tema destacam que o coping religioso está interligado a múltiplos benefícios no campo da saúde física e mental, sobressaindo que as crenças e práticas religiosas geram uma expectativa positiva da existência humana, contribuindo para uma melhor aceitação do processo de adoecimento, já que, ao propiciar a percepção de que a vida está sob o controle de um “ser superior”, diminuem o sentimento de solidão e de sofrimento ao oferecer a certeza de que existe um suporte social e divino. Além do mais, o coping religioso pode ser empregado por qualquer indivíduo, indiferente às suas condições físicas, mentais e sociais.

As resistências do saber científico em ampliar o olhar para os prováveis benefícios do coping religioso, talvez seja porque em indivíduos que demonstrem uma vulnerabilidade emocional, pensamentos religiosos podem ratificar tendências neuróticas, colaborando para o aparecimento das sensações de culpa ou medo e, além disso, abreviando a perspectiva de vida, ao contrário de ampliá-la. Um exemplo dessa apreensão, possivelmente resida na hipótese de que certos pensamentos religiosos podem cooperar para o surgimento de prejuízos nos aspectos físicos e psicológicos, visto que, em determinados momentos se opõem aos métodos terapêuticos convencionais.

Em períodos em que o estresse se transforma numa realidade global e que os diferentes métodos terapêuticos se apresentem de modo ineficiente para reverter o estado de cronicidade, quiçá a busca por um modelo holístico, com a sua competência para envolver distintas racionabilidades médicas, e além disso, uma melhor compreensão das complexidades que permeiam a existência humana, permitindo conjecturar sobre o emprego da oração e da busca sobre o valor da espiritualidade e/ou religiosidade como mais um elemento que possibilite desenvolver novos recursos de enfrentamento, e, que portanto, considerem a procura pelo sagrado, como provável resposta aos questionamentos do significado e da finalidade do sofrimento físico e mental.

O coping religioso pode ser compreendido como algo que se utiliza das atividades religiosas como um possível mecanismo de enfrentamento dos fatores geradores de estresse, sendo que, para isso envolve a procura dos indivíduos pelo consolo em algo com características de divindade, através de orações, purificação de pecados, auxilio de sacerdotes, ou até mesmo a utilização dos conceitos religiosos para uma ressignificação do sentido da existência humana. Não obstante, a investigação dos alicerces científicos do coping religioso (positivo) seja um grande desafio, visto como, muitos indivíduos no decorrer das experiências religiosas, relatem uma sensação de alívio do sofrimento físico e mental, a partir de conceitos que denotam uma subjetividade, pois são descrições que advém de um contato com o “sobrenatural”, e, portanto, algo que implica em dificuldades de mensuração.

Em The Modes and Morals of Psychoterapy o autor Perry London, afirma:

“O psicoterapeuta contemporâneo, no que se refere ao diagnóstico e métodos terapêuticos, pertence ao campo do saber científico, mas a especificidade dos seus casos o coloca à parte do saber clínico e, de certo modo, mais próximo do sacerdote. Afinal, ele cuida das moléstias do espírito, por assim dizer, e que não podem ser observadas por um microscópio ou curadas pelos mais avançados medicamentos. Seus procedimentos têm pouco do subsidio concreto e do empirismo lógico do saber científico, pois ele não utiliza injeções, curativos ou prescreve remédios. A cura é em parte alcançada, sobretudo, pelo processo da escuta. As contaminações que procura encontrar e extinguir não são determinadas por bactérias ou vírus, mas sim, ideias, reminiscências de vivências desagradáveis que debilitam o indivíduo e que, portanto, o impedem de elaborar adequadamente as suas eventuais crises existenciais”

 

*Coping religioso apresenta um conjunto de táticas empregadas, objetivando o enfrentamento de modo adequado, frente as situações que o indivíduo compreenda como geradoras de estresse. Desse modo, compreende-se por coping religioso “positivo” as crenças religiosas que gerem resultados favoráveis, ex.: Deus como fonte de socorro, a eficácia da oração, a esperança em uma força de origem sobrenatural, etc. Em ocasiões, nas quais os resultados não sejam benéficos o coping religioso pode ser avaliado como negativo, ou seja, naqueles em que os agentes estressores são vistos como os possíveis causadores dos prejuízos nos aspectos físicos e mentais, tais como: a punição divina em decorrência de um ato pecaminoso ou a manifestação demoníaca como fruto de desobediência aos preceitos religiosos.

ARTIGO produzido a partir de um Seminário do ProMulher de julho de 2015- Programa de Saúde Mental da Mulher da USP- pelo psicólogo da Equipe Sérgio de Pedro sob supervisão do Dr Joel Rennó Jr, Coordenador do ProMulher.

Referências:

Texto baseado no artigo intitulado

 O papel da oração como coping religioso positivo em redução do estresse.

Publicado em: Arquivos Médicos dos Hospitais e da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa São Paulo. (2014)

Autor: Armando Ribeiro das Neves Neto

The Modes and Moral of Psychotherapy 2a. Edição (1986). Autor: Perry London