Irei reproduzir abaixo a matéria de hoje, 12/10/2015, publicada no Estado de São Paulo, com fins apenas didáticos e informativos por parte de um especialista em psiquiatria – mas que vem sendo algo recorrente na imprensa em geral. De forma errônea, qualquer medicamento psiquiátrico vem sendo considerado como “tarja preta” e isso precisa ser desestigmatizado inclusive do inconsciente das pessoas- até porque o termo tarja preta assusta. Abaixo reproduzo a matéria com alguns comentários meus em negrito:

MATÉRIA: USO DE REMÉDIO TARJA PRETA CRESCE 52% EM SÃO PAULO. Comentário: A que tarja preta se referem?

SÃO PAULO – Em quatro anos, o número de usuários de medicamentos tarja preta na rede municipal de São Paulo cresceu 47%, passando de 592,8 mil pessoas, em 2010, para 874,4 mil em 2014. São 281,6 mil novos consumidores de antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos que recorreram às farmácias da Prefeitura no período. Comentário: apenas os medicamentos chamados de ansiolíticos, os benzodiazepínicos podem ser considerados medicamentos de tarja preta, com risco de abuso e dependência. Antidepressivos e antipsicóticos jamais são medicamentos de tarja preta.
Segundo dados da Secretaria Municipal da Saúde, os moradores da capital consumiram no ano passado 166,8 milhões de comprimidos para transtornos psiquiátricos, 52% a mais do que em 2010.

Entre os tarja preta, os antidepressivos lideram: meio milhão de pessoas usaram o medicamento em 2014, e a expectativa da Prefeitura é de que o ano de 2015 registre recorde no consumo desse tipo de remédio. De 1.º de janeiro a 30 de setembro deste ano, 471,8 mil pessoas retiraram antidepressivos nas farmácias municipais. Comentário: mais uma vez enfatizo que antidepressivo não é medicamento tarja preta.
O segundo tarja preta mais consumido na rede municipal em 2014 foram os ansiolíticos, calmante que ajuda a reduzir a ansiedade. São 203,3 mil usuários, e mais da metade toma Rivotril. Já os antipsicóticos, com 130,7 mil pacientes, tratam transtornos que causam alucinações, como a esquizofrenia. Comentário: antipsicóticos utilizados para tratamento de esquizofrenia e transtorno bipolar de humor, entre outros quadros psiquiátricos, também não são medicamentos tarja preta e podem ser comprados com receituário comum, carbonado, conhecido como Receituário de Controle Especial, o mesmo que se vende antibiótico, por exemplo.
Para Anderson Sousa Martins da Silva, psiquiatra da rede, uma das razões para o aumento do uso de medicamentos tarja preta é a diminuição do preconceito em relação aos transtornos psiquiátricos, o que estimula mais pessoas a procurar ajuda. “A própria Associação Brasileira de Psiquiatria tem feito campanha contra a psicofobia, esse estigma em torno dos pacientes psiquiátricos. Hoje as pessoas percebem cada vez mais que a depressão é uma doença como qualquer outra e precisa de tratamento”, diz.
O crescimento do estresse e da violência nas grandes cidades também são fatores importantes para o aumento das doenças mentais. “Muitas vezes, a pessoa associa um quadro de depressão a um evento-gatilho, como a morte de alguém ou uma separação, mas também é comum o problema aparecer sem uma motivação aparente, após anos de pressão e estresse crônico no trabalho, por exemplo”, afirma Silva. Comentário: ao mesmo tempo que se precisa lutar contra o preconceito que envolve a doença mental e de quem sofre dela, o próprio tratamento precisa ser discriminado porque há classes diferentes de medicamentos para os diversos transtornos mentais. Antidepressivos e antipsicóticos não causam dependência jamais, nunca foram ou serão considerados “tarja preta”.
Demanda reprimida. Professor do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Jair de Jesus Mari afirma que o crescimento de distribuição de medicamentos na rede municipal atende a uma demanda reprimida. “Não acredito que exista um fenômeno de medicalização. O que acontece é que, antes, as pessoas tinham menos acesso. Mesmo com esse aumento, estimamos que 50% das pessoas com depressão em São Paulo não recebem tratamento.”
O especialista afirma ainda que os números da Secretaria Municipal da Saúde desmentem o mito de que depressão é “doença de rico”. “Na verdade, as classes mais pobres têm risco maior pela própria condição precária de vida, dificuldades financeiras, baixo acesso ao lazer e violência. É positivo oferecer à população de baixa renda um tratamento que sabidamente é deficiente”, ressalta. Comentário: Verdade, ainda a depressão é subdiagnosticada (50% não recebe tratamento correto) e atinge igualmente pobres e ricos, não é sinônimo jamais de falta de fé, fraqueza ou frescura. Depressão hoje é considerada uma doença sistêmica, até com mediadores inflamatórios envolvidos e com outros marcadores biológicos importantes.
Mari afirma, no entanto, que é preciso ampliar também o acesso a outros serviços essenciais ao tratamento dos pacientes com transtornos psiquiátricos. “A oferta de psicoterapia não me parece tão ampla quanto a dos medicamentos. E o melhor tratamento é sempre aliar as duas coisas.” Comentário: Todos os trabalhos científicos atestam que a combinação entre psicoterapia, principalmente a terapia cognitivo comportamental (TCC), e medicamentos é mais eficaz.
Estratégias. O secretário municipal da Saúde, Alexandre Padilha, concorda que nenhuma estratégia isolada dá conta do problema. “Não podemos lidar com o tema de transtorno mental e de depressão em São Paulo só dispensando medicamento. Existe algo no modo de viver na cidade de São Paulo que leva as pessoas a quadros de saúde mental. É crescente isso.”
Diante do aumento de consumo e de usuários nos últimos quatro anos, a Prefeitura elaborou duas estratégias de estímulo ao uso racional desses medicamentos. A primeira é a promoção da saúde. A gestão quer aproveitar os espaços públicos para gerar mais atividades e convivência. De acordo com o secretário, as 157 Unidades Básicas de Saúde promovem grupos de prática corporal e integrativa.
“Estamos orientando esses grupos para que façam atividades fora dos muros. Pode ser nas praças, na frente das unidades. Precisamos inundar a cidade não só de medicamentos, mas de práticas corporais, estímulo às atividades físicas e convívio entre pessoas.”
A Prefeitura vai, ainda, editar um protocolo, previsto para o primeiro semestre de 2016, em que pretende sensibilizar profissionais da saúde mental para o uso “mais racional” dos medicamentos. “Queremos deixar mais clara qual é a indicação desses medicamentos”, afirma Padilha. Comentário: não vejo na minha prática profissional que haja uso irracional dos medicamentos psiquiátricos por parte dos profissionais da área de saúde mental (até porque muitos dos medicamentos psicotrópicos sequer são prescritos apenas por psiquiatras), é o tipo de generalização sem o menor sentido, com todo o respeito ao atual secretário de saúde do município.