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Vermeer. “Mulher bebendo vinho e cavalheiro”. Fonte: wga.hu; google imagens.

 

Viver é perigoso. Sabe-se disso. Belo é ler esta frase saindo da boca de um jagunço, como é o caso de Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa. Belo porque dita por alguém cuja profissão é matar. É como se a morte jogasse xadrez com a vida do indivíduo.

A vida é assim, um jogo de xadrez com a morte, de cujo xeque-mate procuramos todos escapar. Mas também se sabe, ela vai vencer.

Ao colocar um filho no mundo, penso que deveríamos ter ciência de que ele jogará esse jogo.

Jogo no qual a morte será auxiliada pelos traficantes de drogas e o seu mercado consumidor.

São os traficantes, inclusive, que, ao cobrirem a demanda do mercado, mais educam hoje em dia as crianças e os jovens, porque fomos marcados pelo modo de vida norte-americano, caracterizado pelas diversões rápidas e quimicamente intensificadas. O trabalho de cada dia, e o tédio do mundo moderno, toma bastante tempo das pessoas. Assim, sobra pouco tempo para os divertimentos, que têm de ser rápidos, o que diversas drogas permitem; ao custo da saúde, pois se o vício foi adquirido, seja ele qual for, com o tempo ele converte o usuário em seu escravo.

Até mesmo muitos adultos são hoje educados por traficantes educadores.

Mas, PARA ALÉM DA HIPOCRISIA, não podemos esquecer que a humanidade nunca viveu sem substâncias psicoativas, a mais clássica sendo o álcool. Os sábios gregos e os patriarcas do Antigo Testamento bíblico elegeram o vinho como a sua substância, dos quais neste assunto sou discípulo –  pois “quem não se abriga no vinho, abriga-se nas drogas.”

Cada época, cada sociedade, cada grupo social valoriza um tipo de droga, e em certas comunidades elas têm um papel ritualístico e iniciático. O problema é a dimensão que o mercado de drogas recreativas (este é o nome correto) atinge nos dias de hoje, quando fomenta um modo de vida que distancia a pessoa da convivência consigo mesma, dos “alimentos espirituais”, e sobretudo da natureza e de uma vida harmônica com esta: pois nós também somos a natureza, e quanto mais naturais somos, mais somos fiéis a nós mesmos, e assim mais saudáveis. Certas fidelidades fazem bem!

Ora, a vida que o traficante como educador alimenta é uma vida artificial. Logo, falsa. Esta é uma das grandes diferenças, senão a maior, entre o antes e o agora no uso de droga: é que agora os vendedores desta (e aqui incluo a rede social), e seu mercado, é que detêm o monopólio da educação e dos rituais iniciáticos de crianças e jovens. E isto, filosoficamente falando, se chama decadência.