“Gatuno” –  aquele que furta, um ladrão –  é um palavra que veicula um falso conceito, pois é relativa a gato. Diz-se que alguém é gatuno quando furta sorrateiramente. Mas furtar é um conceito da esfera humana, do indivíduo vivendo em sociedade e que deve obedecer certas regras como a de não roubar. Assim, projeta-se um conceito humano no animal. Um gato (ou outro animal qualquer) quando pega algo para comer, fá-lo por instinto. Se há comida e ele estiver saciado nem liga para ela; diferentemente de um ser humano, que come mesmo tendo saciado a fome, que furta mesmo tendo em profusão o que é furtado – é conhecido aquele distúrbio mental, a cleptomania, que leva as pessoas a roubarem objetos independentemente do seu valor e da sua serventia, só para satisfazerem uma compulsão pela posse.

Portanto, todo cuidado é pouco com os pré-conceitos. A linguagem pode perigosamente veiculá-los seja na esfera de animais humanos quanto de animais não-humanos. E todo pré-conceito merece combate, pois são extremamente perigosos, perpetuam relações de domínio maléficas e injustas, criam até mesmo doenças. Esse cuidado com a linguagem vale inclusive para as assim chamadas piadas de mau gosto. Viva o riso, viva o bom humor, mas que todos possam rir.

Rir é um privilégio do humano. Este é um ponto em que talvez o animal não-humano sentisse inveja da gente. Como a gente sente inveja daquele olhar pleno de eternidade subitamente surpreendido nos olhos deles.