O que mais me chama a atenção numa produção de vinhos é o silêncio das uvas.

Nos parreirais vicejam as frutas que depois darão origem ao amável líquido, que não só torna a vida menos dura, mas permite, nos bons encontros que a vida às vezes proporciona, um festejo desses momentos, como que os tornando mágicos. Claro, isso para quem sabe beber, pois há sim uma arte de beber. Uma coisa é a pessoa empurrar um copo de vinho goela abaixo, outra coisa completamente diferente é a pessoa sorver uma taça do amável líquido servindo-se da visão, do olfato e do paladar.

Olhando os parreirais antevejo que esse silêncio mostra uma concentração quase que psicológica da fruta para absorver em si sol, noite, calor, frio, secura e umidade. Depois da maceração, do envelhecimento em barricas, e do engarrafamento, e quando a garrafa for aberta, uma vida sairá desta.

O silêncio da uvas, então, torna-se espírito, presente em conversas, refeições, reflexões etc.

Toda uma vida foi amadurecida no silêncio, e agora transforma-se em sonoridade.

O silêncio das uvas, portanto, é uma forma concentrada de gestar diálogos, para os que têm companhia, ou monólogos, para os que estão sozinhos absortos nos próprios pensamentos e nas próprias contemplações.