[Pista de Congonhas. Fonte: Wikipedia]

Aeroportos são ambientes maravilhosos para beber um bom vinho e observar as pessoas – a vida e os seus personagens. Afinal “pessoa” é uma palavra que vem do latim “persona”, isto é, máscara de teatro. Toda pessoa é portanto uma personagem. Os que vêm, os que partem, os que esperam. Cada tipo se avista nos saguões! Vidas cruzadas, cada uma com seu passado, presente e futuro que se abre à frente.

Fui no último fim de semana fazer turismo cultural em Sampa. Algo afetivo. Ali passei parte da minha infância e me formei acadêmica e culturalmente. Apesar de hoje morar cercado de uma belíssima natureza, em Florianópolis, sinto de vez em quando necessidade de respirar cultura na poluída São Paulo. Entre natureza e cultura move-se a vida humana.

No embarque em Congonhas resolvi fazer uma parada estratégica no interior do Aeroporto e beber uma garrafinha de vinho branco acompanhada de um pão de batata. Me sentaria e observaria o teatro dos viajantes. Pedi o pão e o vinho. O vinho estava bom e resolvi harmonizá-lo com aquele pão de batata. Harmonização estranha, mas sou vegetariano. Dei uma faminta abocanhada no pão… Ui!,  tinha carne!… calabresa. Tinha certeza de que escolhera um pão de batata, logo, algo estava errado. Voltei ao caixa e reclamei. A moça me olhou atônita e convencida: “é pão de batata com carne”. Respondi: “Pedi pão de batata”. Ela: “mas tem batata, só que com carne”. Eu: “não como carne”. Depois de um silêncio sepulcral e com outras já impacientes pessoas assistindo ao nosso diálogo, fiz a proposta: “me devolva por favor o dinheiro, pois você não me informou que o pão de batata tinha carne, ou então me dê um pão de batata”. Ela pegou de volta aquela massa arredondada, já com uma dentada que foi expelida, olhou, jogou fora, fuçou com a colher o depósito de salgadinhos e, bingo!, me deu um autêntico e puro pão de batata.

Penso que está faltando no mercado brasileiro a percepção, que ainda vai gerar bom dinheiro para quem a souber aproveitar, de que existe de fato um público crescente de vegetarianos. Aos que quiserem aproveitar a sugestão, aconselho trabalharem o vegetarianismo com produtos orgânicos certificados, e conquistarem espaços estratégicos de distribuição, especialmente dentro dos aeroportos e rodoviárias.

É difícil para muitos compreenderem que sopa de galinha tem carne, que peixe é carne, que caldinho de feijão com bacon tem carne, que um pão de batata com calabresa tem carne, e coisas semelhantes. A carne, que porventura “tempera” os vegetais e grãos, torna a comida não-vegetariana, e para um vegetariano isso é inaceitável.

O vegetarianismo é uma bem consciente opção de vida.

Devido a uma educação cultural equivocada, e à propaganda da indústria do abate animal e dos alimentos, poucos acreditam que ninguém é obrigado a comer carne e que esta não é essencial à saúde (pelo contrário, se vermelha, pode elevar muito o colesterol e assim conspirar contra o coração).