Delacroix. “A liberdade conduzindo o povo”. Fonte: Google imagens.

De um lado foi triste saber da morte de um grande artífice da língua portuguesa, como era João Ubaldo Ribeiro; de outro, no meio da tristeza, contentou-me ler o seu último texto “O correto uso do papel higiênico”. No fundo, trata do cerceamento da liberdade de expressão, que, penso, como abordei aqui em texto intitulado “Inflação de gols ou sobre Brasil 1 x 7 Alemanha”, toma conta do país.

De fato, as patrulhas nascem e espalham-se entre nós, mesmo entre aqueles que deveriam combatê-las. Assim, cresce o preconceito entre os estudiosos de gênero contra os heterossexuais; cresce o preconceito entre os supostos ilustrados contra quem pertence à direita política esclarecida; cresce o preconceito entre os tatuados contra quem não é tatuado; alunos mal educados (incentivados pelo ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente, que dá a toda criança e adolescente direitos ilimitados, sem cobrar-lhes deveres) não suportam professores, achando que o professor é quem deve aprender, e assim por diante.

Essa mentalidade pervertida, associada a patrulhamento autoritário, são apoiados naquela tentativa oficial, à qual me referi, e Ubaldo, de gerenciar a vida privada de todos, o que foi simbolizado na excrescência legislativa conhecida como “lei da palmada.”  Vamos e convenhamos, esta lei é um atentado à vida privada. A violência já tem leis para coibi-la. Para que a redundância? Só pode ser fruto do falseamento, isto é, da hipocrisia do país em várias esferas, principalmente na política (corrupção sistêmica) e econômica (contabilidade criativa dos economistas oficiais). E toda essa mentalidade termina infelizmente por influenciar outras esferas de convivência.

Curiosamente, o que outrora escrevi converge em ideia para o último texto de João Ubaldo Ribeiro. Este, lúcido e com bom humor, falou que um dia, a levar a sério a mentalidade da lei da palmada, podemos chegar ao ponto de quererem regular o que se passa sexualmente em nossa cama.

Cercear a liberdade de pensamento e expressão, e a isso conectar políticas comportamentais públicas, é vocação de mentes totalitárias, e daqueles que os imitam.

Na minha experiência de muitos anos de professor em sala de aula (ensino médio e superior), notei como muitos alunos e alunas tornam-se, inconsciente e conscientemente, cada vez mais conservadores… com os outros! Entre si, na turma, costumam ser liberais. Mas, pergunto, para ser uma bela juventude, não deveria esta aprender a tolerância universal e defendê-la com unhas e dentes?

Fiquei contente com a crônica do João, que em espírito coincidiu plenamente com o que eu disse em 11.07.2014, e que aqui complementei. Faço minhas as lúcidas e derradeiras palavras impressas do escritor: tentar gerenciar a vida privada dos brasileiros faz parte do espírito “desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante” que “vem prosperando” entre nós; sobretudo, eu acrescento, nos últimos doze anos.

Vida longa ao João.