[Escola de Atenas, de Rafael, com Platão e Aristóteles no centro]

A tradição consagrada da filosofia ocidental, que influenciou toda a nossa maneira de pensar, é fortemente marcada pela orientação racionalista que encontra na matemática, e nas ciências exatas nela baseadas, o seu modelo de verdade; algo que foi exemplarmente exposto por Platão na obra A república, em que as matemáticas (geometria e aritmética) dão acesso ao mundo verdadeiro das Ideias eternas, arquétipos deste mundo sensível, temporal, de sombras. A aritmética e a geometria conduziriam à verdade, pois ocupar-se-iam com aquilo que é fixo e nunca se transforma. A faculdade humana de razão e o mundo diante de nós harmonizar-se-iam na revelação metafísica das coisas, para além das imagens transitórias delas. A faculdade racional, parte boa da alma em oposição aos sentimentos que nos fragilizam, segundo o próprio Platão, deve reger a estes, e desse modo conduzir-nos ao sentido das coisas. Em realidade tem-se já aqui uma ordem numérico-espacial da natureza que poderia perfeitamente ser pensada como um primeiro esboço da chamada matemática universal.

A faculdade de razão, que define o próprio ser humano, é vista desde a Academia grega de Platão, passando pela aurora da filosofia moderna, não só como aquilo que diz corretamente o que é mundo, mas também como aquilo que diferencia o homem do animal. Uma diferença que levou Descartes no século XVII a alertar em sua obra Discurso do método que, após o erro dos que negam Deus, não há outro que “mais afaste os espíritos fracos do caminho reto da virtude que imaginar que a alma dos animais é da mesma natureza que a nossa”. O autor ainda formula explicitamente, na quinta parte desta obra, que o estudo das ciências tem por objetivo tornar-nos “como que mestres e possuidores da natureza”.

Eis aí, notemos, um pensamento que no seu extremo em muito deve ter contribuído para a destruição da natureza e para a crueldade contra os animais observadas em nossos dias e que levou Adorno e Horkheimer a alertarem que o pensamento marcadamente racionalista relaciona-se com as coisas do mundo “como o ditador relaciona-se com as pessoas”, ou seja, “só as conhece na medida em que são manipuláveis”.

Tempos depois Kant não deixará de seguir tais passos platônico-cartesianos no sentido da separação entre um observador e a natureza como seu objeto, em verdade alvo do próprio projeto científico-racionalista de desmistificação do mundo, com concomitante domínio instrumental dele. De fato, uma das imagens mais famosas de Kant, apresentada na sua Crítica da razão pura, é a de que o cientista vai até a natureza não na condição de aluno para ser por ela instruído, mas na de juiz que dela exige respostas às suas questões. Quanto aos animais, a  Fundamentação da metafísica dos costumes os classifica como “coisas”, diferentemente dos seres humanos, que são “pessoas”. As pessoas seriam um fim em si mesmas, não poderiam ser usadas, ou seja, seriam dignas, enquanto as coisas, os animais entre elas, poderiam ser usadas, poderiam ser meios para um fim.

Compreende-se por tais marcos que não é comum à tradição filosófica debruçar-se sobre o tema da dignidade dos animais, sobre o direito deles, visto que separa cuidadosamente a substância racional pensante, o ser humano, e a natureza exterior a ele.

Penso que já é tempo de desconstruir esse ilusório paradigma antropocêntrico. Paradigma que considera o ser humano como a coroa da criação, e que, infelizmente, influenciou marcadamente a filosofia, a jurisprudência, a ciência, enfim, todo o modo de pensar ocidental. Tendemos a conceber o ser humano como o único ser digno. Os animais, ao contrário, são geralmente considerados como coisas, sobre as quais podemos dispor com poderes de vida e de morte como deuses em face das suas criaturas. Esse paradigma que nos impregna pela educação recebida pode no entanto ser paulatinamente revisto. Nessa revisão podem tomar parte todos aqueles que sabem e sentem que no corpo animal pulsa um coração, circula sangue, há sentimentos os mais variados expressos nas mais variadas situações, para não falar que a maioria deles possui sistema nervoso central, logo, são passíveis de sentir dor tanto quanto a gente.

Animal Ethics

The established tradition of Western philosophy is certainly strongly marked by the rationalist orientation, which in mathematics has its model, something exemplary exposed by Plato in his philosophical work The Republic, in which mathematics gives access to the world of eternal ideas, archetypes of the sensible world. This world is a place of simulacra and shadows of the true things, the Ideas. The arithmetic and geometry guide us to the truth, because the numbers and figures point what is always and never perisches. The faculty of reason and the world are in harmony. From this point of view there is an unveiling of the metaphysical truth of things and we go beyond the transitory images of the cavern in which we live. The rational faculty, said Plato, is the good part of the soul and is opposed to feelings. The feelings must be governed by reason, and so there is the revelation of the meaning of existence and of the meaning of the world. In fact we have here a numerical-spatial order of nature that might well be thought of as a first draft of the Cartesian universal science of order and measure, ie, the so-called universal mathematics.

The reason is seen since Plato, and through the modern philosophy, not only as a faculty that says correctly the world, but also as a faculty that distinguishes man from animal. One difference that leads Descartes to assert in his Discours de la méthode that after the error of those who deny God, there is one worst, ie, to say that the soul of animals is similar to that ours. The author also makes explicit, in the fifth part of his cited work, that the study of science will make us masters and possessors of nature. Here we find a thought that in the extreme have contributed to the destruction of nature (and to the cruelty against animals) observed today and which leads Adorno and Horkheimer to warn that the Enlightement only knows the things in the sense that they are manipulated.

Kant does not reject to follow these steps established by Platon and Descartes. In fact  Kant makes a separation between an observer and a nature as his object.  The very project of Enlightenment is the demystification of the world, with a concomitant instrumental domination of him. In this sense one of the most famous images of Kant in his work Kritik der reinen Vernunft is that the researcher goes to the nature not as a student to be instructed by it, but as a judge that requires from the nature answers to his questions. In the case of animals, these are for Kant  “things”, differently from men, who are “persons”.

It is not common to traditional philosphy to focus on the theme of the dignity of animals and their rights. In general the philosophy separates in the one hand rational thinking person, and on the other hand the extended substance, ie, the external nature as an object. The nature is commonly seen as an object that can be used.

What here I intent, with Schopenhauer and Peter Singer, is to explain that there is a Western tradition in order to exercise dominatoin over the nature. This Western tradition goes back to the Bible. This book played a predominant role in the relationship between people and nature in the West: Nature would be created for us, so we could use the nature as we wanted, we could explore animals as mere things without dignity. This point of view influenced almost all Western philosophy. This point of view has also influenced the science and the mentality of Western culture as a whole. It is time, however, to criticize this mentality through the so-called animal ethics. This one considers the animals as “persons” with rights and thus under the full protection of law.