[Nietzsche. Fonte: Wikipedia]

Em sua obra poético-filosófica Assim falou Zaratustra Nietzsche (1844-1900) coloca na boca de Zaratustra, o personagem principal do poema, grandes verdades a serem transmitidas ao leitor. Curiosamente os primeiros ouvintes de tais verdades são animais. Notadamente uma águia e uma serpente. Estes o acompanham em todo o trajeto da sua peregrinação e pregação por entre seres humanos que não têm ouvidos para ele. São os seus animais de companhia que primeiro lhe ouvem e entendem; mas não só isso, são eles que insistem para o protagonista não desanimar e continuar a anunciar aquilo para o que os humanos até então não tinham ouvidos: a revelação, dentre outras, de que “Deus morreu”, de que tudo retorna, cada grão de areia, cada árvore, cada ser, como cada estação etc. Tudo isso em meio a um cenário com montanhas, pedras, árvores, correntes de água, lagos, decerto inspirados nos Alpes suiços de Sils-Maria, para onde Nietzsche, fugindo do calor excessivo da Alemanha no verão, peregrinou por muitos anos, para encontrar nas alturas uma atmosfera suportável e inspiradora.

[Sils-Maria, Alpes Suiços. Foto: Jair Barboza]

Temos aí portanto uma obra na qual a natureza e os animais falam e estes entendem e fazem revelações.

Numa passagem das mais interessantes, a águia e a serpente dirigem-se a Zaratustra e o encorajam a não esmorecer em sua missão. Em dado momento, observam-no cansado embaixo de uma árvore e respeitam sagradamente o seu sono.

Tudo isso mostra como um impactante filósofo pode sim dar lugar em suas linhas aos animais e assim indicar elementos para uma filosofia que harmoniza humanos e não-humanos. Sem dúvida, encontramos ali talvez as mais belas páginas de Nietzsche. Que, por sinal, reza a lenda, antes de colapsar psiquicamente abraçou-se compassivamente a um cavalo cruelmente maltratado.