Num certo certo dia ensolarado do inverno de 2009, passando férias em Florianópolis, lia um jornal e soube da morte do Catatau. Fiquei curioso com a história desse canino que mereceu homenagens póstumas de um colunista local.

Descobri depois que se tratava de um cão ímpar, revolucionário, muito querido na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialmente entre os estudantes, pois não só participava das suas manifestações e assembleias como latia para suspeitos que entravam no campus universitário, e chegou a sentar, com apoio integral dos manifestantes, na cadeira do reitor da universidade quando a reitoria foi invadida, dentre outros importantes casos.

[Catatau no centro de uma assembleia estudantil. Fonte: Google imagens]

Tempos depois, ao ingressar como professor no quadro docente da UFSC, a memória do cachorro ainda estava, e está, viva. Na lanchonete da faculdade de filosofia vi um adesivo com o nome “Che Catatau”, em óbvia alusão ao revolucionário de Rosário que, ao lado de Fidel Castro, criou a Cuba socialista em desafio aos pseudo-puritanos “yanques” norte-americanos.

Mas quem era Catatau? O seu nome lembra para mim, num primeiro momento, o fiel amigo do Zé Colmeia do desenho animado, ao qual eu assistia diariamente na minha infância, por volta do meio-dia, quando voltava da escola; mas também remete a um bicho pequeno (catatau).

Fui em busca de informações com testemunhas oculares.

Um professor, o glorioso H., disse que havia dado aulas para Catatau e seu amigo de matilha Ovelha. Ironicamente afirmou que foram os seus dois melhores alunos. Na UFSC, especialmente na faculdade de filosofia, os cães ali presentes (abandonados) são de modo geral respeitados e bem tratados e por vezes entram em sala de aula – obviamente que há toda uma campanha contra o abandono, pois se trata de crime, e muitas pessoas se aproveitam do carinho de alguns estudantes, alguns funcionários e alguns professores pelos bichos para criminosamente ali os abandonarem. De fato, quem testemunhar alguém abandonando um animal, anote, se for o caso, o número da placa do carro, em seguida denuncie numa delegacia próxima; se o delegado ou o escrivão recusar-se a fazer o boletim de ocorrência, alegue possível prevaricação, pois assim decerto o boletim será lavrado.

Segundo relatos que ouvi, e li, numa dada manifestação estudantil contra o aumento das passagens de ônibus o revolucionário cão acompanhou debaixo de chuva os protestos pelas ruas da cidade até o centro de Florianópolis; depois foi trazido de volta num carro. Também soube que foi levado à praia (deve ter entrado alegremente no mar) e que algumas vezes tentaram tirá-lo do campus e dar-lhe uma acomodada vida em casa de família, boa comida, cama confortável, dono amoroso, porém recusou tais confortos pequeno-burgueses.

Catatau foi abandonado na UFSC ainda filhote. Ali cresceu e viveu cerca de 12 anos, até que foi encontrado morto num córrego que atravessa a universidade. Não se sabe se morreu de morte morrida ou de morte matada.

Todavia a memória de Catatau vive, e, para não deixar que ela morra, foi erguido no campus um monumento ao mascote com uma belíssima citação atribuída a Aristóteles: “A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las.”

Não conheci Catatau, porém jamais o esquecerei.