O filósofo escocês David Hume dizia que a diferença entre verdade e ficção é que a primeira é  uma crença forte enquanto a segunda é uma crença fraca.

Que isso tem a ver com a febre da criptomoeda bitcoin? Tudo. Trata-se de uma crença de que esta moeda, no momento, vale mais que ouro.

Ouro foi e é uma crença. Aqui penso em Kant. Dizer “ouro é um metal precioso” não é um juízo analítico, em que o predicado já está contido no sujeito. Noutros termos, o predicado “metal preciso” não está contido no sujeito “ouro”, ao contrário  do juízo “todo solteiro é não casado”, no qual o predicado “não casado” já está contido no sujeito “todo solteiro”; todos os solteiros são não casados. Dizer “ouro é metal precioso” é, em realidade, formular um juízo sintético, o que significa dizer que o predicado “metal precioso” é acrescentado pela experiência ao sujeito “ouro”.

Assim, car@s leitores e leitoras, a crença no valor da moeda que usamos, como o real e o dólar, deriva de um juízo sintético formado na comunidade e no tempo em que vivemos.

Nesse contexto, o dólar, apesar de ser a moeda mais “furada” de todos os tempos, tem ao seu lado um mundo que acredita, ainda, nela. A maioria dos bancos centrais do mundo a têm em reserva, apesar de os EUA a imprimirem sem cansar. Os bancos centrais do mundo só não se desfazem do papel dólar porque a economia mundial, crente no dólar, iria a bancarrota.

E aqui entra @ bitcoin. É um algoritmo matemático. 21 milhões de moedas e nada mais. Pode ser transacionada P2P, ou seja, “peer-to-peer”, de pessoa para pessoa, em qualquer parte  do mundo, sem a necessidade de pagar taxas abusivas a bancos e cartões de crédito. Aliás, @ bitcoin tira poder destes últimos “terceiros” que nos atormentam todos os dias com as suas taxas escorchantes.

É socialmente justa @ bitcoin, pois, ligada à contabilidade pública chamada blockchain, impede a assim chamada “contabilidade criativa”, seja de governos, empresas, ou pessoas.

“Bolha especualativa”? Sim, @ bitcoin já passou por várias delas e mostrou-se resiliente. Numas delas sofreu um “crash” que @ fez despencar quase 80 por cento em seu valor. Vai ter novo crash? Sim, vai, mas ao meu ver, se a crença nela continuar – como acho que vai, porque a ideia é socialmente justa, ou seja, @ bitcoin conserva valor, é  desinflacionária e descentralizada –, então volta mais robusta.

As criptomoedas, aliadas à blockchain, vieram para ficar. São uma revolução da contabilidade, ou seja, o capital com cem por centro de certeza daquilo que entra e sai, tudo inspecionado pela rede mundial de computadores, e a sua relativamente anônima veiculação P2P. Isso é, ao mesmo tempo, uma revolução social que tira poder de bancos e governos. Uma revolução tecnológica só comparável à da internet. Mas tem briga pela frente. Quem está agora com o “osso” não o vai dividir facilmente. Será uma luta da velha contra a nova economia.

Com a ajuda de Hume e Kant mencionada acima, ouso dizer: vida longa para @ bitcoin e blockchain! Que estas evoluam para uma crença forte, enquanto o dólar, e as moedas controladas por decretos governamentais, tornem-se uma crença fraca. Decerto, assim, teremos um mundo em que o poder será diluído entre indivíduos de todos os estratos sociais, algo que satisfaz o conceito de democracia.