Ainda sobre a inflação de gols do fatídico jogo Brasil 1 x 7 Alemanha.

Muito li e ouvi sobre a tragédia futebolística de 1950, quando o Brasil recebeu a sua primeira Copa do Mundo e chegou à final, perdendo para o Uruguai por 2 x 1. Os jornais da época proclamaram antecipadamente a vitória do Brasil. No entanto, no dia do jogo decisivo, nada foi combinado com o Uruguai; e o resultado todos sabem, a derrota, TRAGÉDIA nunca esquecida.

De fato, foi uma tragédia esportiva. Ela, todavia, foi superada com a conquista das Copas de 1958 na Suécia, 1962 no Chile, 1970 no México, 1994 nos Estados Unidos e 2002 na Coreia/Japão. Fazendo da seleção canarinho a maior conquistadora de mundiais.

Tragédias, nos ensina Aristóteles, são vivências limites, e como tal profundamente intensas. Porém tais vivências doloridas são já a preparação para a cura: sofremos, sentimos o mal-estar da perda, mas é exatamente essa tensão que prepara uma descarga emocional, que funciona como um remédio, um catártico. Sentir a tensão, vivê-la, em seguida aliviá-la, faz bem, e até nos tonifica para semelhantes desafios futuros.

Ou seja, se uma tragédia que nos abalou não pode ser esquecida, verdade também é que, quando superada, ela fica apenas com um retrato na memória. É parecida ao luto, pois este, quando superado depois de alguns dias, ou semanas, ou meses cede o seu espaço no espírito para a serenidade da recordação.

Coisa bem diferente da tragédia é a HUMILHAÇÃO. Esta nela mesma não contém possibilidade de catarse, de cura. A humilhação fica cravada na memória como uma ferida sempre a ser curada. Com o tempo pode virar peso de consciência.

Portanto, tragédias são superadas, humilhações dificilmente o são. A não ser que quem nos humilhou prove da mesma humilhação.

O sentimento do humilhado move grande parte das ações de vingança para restaurar a honra perdida. Em certas épocas, esse sentimento conduzia a duelos com armas, com dia e hora marcados: era a chamada honra cavalheiresca. O cavalheiro desonrado desafiava o outro que o desonrou. O duelo tinha de ser por este aceito, porque a desonra maior (covardia) era a recusa do duelo.

Pois bem. Brasil 1 x 7 Alemanha foi uma humilhação, que não será tão bem digerida como os acontecimentos trágicos o são.

A perda da Copa de 1950, o “maracanaço”, foi curada pela conquista de cinco outras Copas. Mas o “mineiraço” de 7 x 1 em favor dos alemães retornará esporadicamente como uma dor. A não ser que haja vingança. Mas como? “Simples”. Se o Brasil, com time excelente e inquestionável, bom futebol arte, admirado, ganhar por placar parecido da Alemanha em outra Copa, e for merecido campeão. Alguém acredita nisso? Aí sim, teríamos desafiado ao duelo o inimigo, dele ganho, e restabelecido a (in)justiça.