Foto: Estevam Avellar/Divulgação/TV Globo

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Leandro Hassum passou por uma grande transformação nos últimos anos. Eliminou mais de 60 kg, mas não perdeu o humor. Neste domingo, 18, ele estreia a série A Cara do Pai, na Globo, e comprovará que sua habilidade em provocar risos independe de sua forma física.

“Existe uma legião de viúvas do gordinho. É normal, eu não critico. Eu acho que as pessoas ficam muito presas a um tipo e esquecem que, acima de tudo, eu sou ator. E o ator está sempre acima do personagem”, disse o ator. “Sempre fui um gordo muito feliz. E sempre fui gordo, nunca me vi magro. Obviamente eu dizia que a gente usa o carisma e o humor para se tornar interessante por outros motivos. Mas nunca me vali de ser gordo para tirar dinheiro em cima disso.”

O E+ esteve nos Estúdios Globo, no Rio, a convite da emissora, para acompanhar um dia de gravação de A Cara do Pai, série que mostrará a relação de Théo (Hassum) com sua filha, Duda (Mel Maia). Divorciado de Silvia (Alessandra Maestrini), ele ganha a vida fazendo shows de stand-up comedy e tenta provar para todos, inclusive a si mesmo, que é capaz de ser um bom pai. Nestas tentativas, ele acaba cometendo diversas trapalhadas, mas a filha consegue enxergar o bom coração do pai.

No intervalo da gravação, o ator recebeu a reportagem em seu camarim para falar sobre a série. Confira alguns trechos da conversa:

Foto: Estevam Avellar/Divulgação/TV Globo

Foto: Estevam Avellar/Divulgação/TV Globo

Quando emagreceu, as pessoas lhe disseram que você iria perder a graça por estar magro?
Sim, muito. Existe uma legião de viúvas do gordinho. É normal, eu não critico. Eu acho que as pessoas ficam muito presas a um tipo e esquecem que, acima de tudo, eu sou ator. E o ator está sempre acima do personagem. Acho que essa viuvez é um pouco em cima de Os Caras de Pau (2010-2013), que era um humor mais clown, mais exagerado, mais palhaço mesmo. E eu não estou mais fazendo este tipo de trabalho, me divertia muito com aquilo, mas surgiram outros tipos de trabalho, com outros tipos de humor. Seja gordinho, seja mais magro… mas as pessoas estão muito órfãs daquele gordinho. Eu me considero um comediante muito à frente de uma barriga. Digo que ser gordo era uma das minhas piadas. Eu espero ter muitas outras piadas para dar para o meu público. E graças a Deus, o que já aconteceu, foi pessoas assistirem ao meu show de humor e, quando acaba, elas me dizem: ‘Hassum, tá engraçado do mesmo jeito’. Eu sei disso, não estou sendo metido. Sei porque a minha comédia independe do tipo físico. Claudia Jimenez uma vez me disse que botar um gordinho dançando de malha já é meio caminho andado. É uma piada pronta quando você me coloca de collant, com 150 kg. Na minha primeira entrada todo mundo vai rir. Só que se eu não tiver o meu talento, um bom texto e uma boa história, uma barriga só não sustenta. Isso existe, eu entendo e compreendo, e já me incomodou mais. Hoje não me incomoda. A única coisa que eu falo é: não olhe achando que você não gosta, se deixe ‘contaminar’ por aquilo que está sendo feito que você vai curtir. Se você vai com este preconceito de que ele emagreceu e perdeu a graça, aí eu não tenho o que fazer. Só lamentar.

Tirar um barato de si mesmo servia para aliviar a intensidade das brincadeiras que faziam com você?
Sempre fui um gordo muito feliz. E sempre fui gordo, nunca me vi magro. Obviamente eu dizia que a gente usa o carisma e o humor para se tornar interessante por outros motivos. Mas nunca me vali de ser gordo para tirar dinheiro em cima disso. Sempre quis ser ator, desde que tenho 16 anos, quando me vi no teatro eu me encontrei naquele lugar. E sempre fui gordinho. Isso para mim era normal. Estranho para mim, hoje, é ser magro. A partir dos 41 anos, que foi quando operei e comecei a emagrecer, eu comecei a viver coisas que eu não vivia, praticar esportes e tudo mais. Eu dizia que não gostava de praticar esportes, mas eu tinha medo, me limitava. Mas eu tinha medo de muitas coisas, e hoje esse medo se foi. Outra coisa que acontece muito, é que tem saído na imprensa que eu tenho perdido trabalho porque deixei de ser gordinho. Vou ser bem metido no que vou falar. Eu cheguei num momento da minha carreira que quem escolhe o meu trabalho sou eu. Quem nega trabalho sou eu. Eu sei que isso não é para todos, mas eu escolho, eu me produzo no cinema, nas minhas peças, aqui na Globo eu tenho o espaço de trabalhar nos produtos que eu acho que são a minha cara. A Cara do Pai foi uma ideia minha, um projeto que iniciou comigo. Não existe isso, pelo contrário. Eu fiz agora Dona Flor e Seus Dois Maridos, que talvez, se eu fosse gordo, não fosse um papel para o meu perfil. Eu só aumentei essa gama de possibilidades. Infelizmente se falam muitas besteiras, mas não vou ficar bravo com isso.

Essa série tem muito a ver com a tua vida. Em que momento você a formatou e apresentou para a Globo?
Eu criei essas histórias da minha relação com a minha filha para o meu show. Eu sempre gostei de falar sobre histórias de família e falar com o público familiar. Aí comecei a fazer estes quadros de humor da minha história com a minha filha no teatro, e eu tinha a ideia de apresentar algo para a Globo. Foi super bem recebido, fomos formatando até chegar neste ponto. O Fabrício [Mamberti, diretor] e o Daniel [Aldjafre, roteirista] deram uma outra roupagem e criamos um novo produto. É uma história que todos os pais vivenciam com os filhos. Cada um foi trazendo seu universo, um pouco de suas experiências, e construindo A Cara do Pai. É um programa de muita identificação. O que a gente espera é que a pessoa em casa se cutuque e diga: “ó, igualzinho a você”. Não só através da risada, mas também da emoção.

Foto: Raphael Dias/Gshow/Divulgação

Foto: Raphael Dias/Gshow/Divulgação

E a maioria das histórias da série você vivenciou com sua filha, Pietra?
Algumas situações. Histórias completas, não. Mas situações pontuais. Porque a gente construiu as histórias em cima dessas situações. Sempre que eu encontro com o Daniel eu falo das minhas histórias. Ele me fala que está pensando em um episódio sobre cachorro e eu conto uma história da Pietra com cachorro. E essas histórias vão entrando. E as que mais têm se parecido com as minhas histórias são as apresentadas nos momentos de stand-up, que costuram a série. A gente trouxe o stand-up costurando a dramaturgia porque foi através dele que surgiu essa história. A gente abre o episódio contando uma história de stand-up, depois corta para a dramaturgia, e o stand-up pode voltar a qualquer momento. Num primeiro momento, meu personagem iria se chamar Leandro e o da Mel, Pietra. Mas a gente chegou à conclusão de que poderia confundir o público. A gente mudou para Theo e Duda.

Houve algum momento em que a Pietra ficou incomodada em saber que ela era a piada dos seus shows?
Jamais. A Pietra foi criada nesse meio. Quando ela nasceu eu não tinha grana, batalhava pra caramba, não tinha dinheiro para babá e minha mulher vivia comigo. Então ela sabe que isso faz parte, rende histórias, e por isso está no programa também, como uma forma de homenagem. Ela leva jeito, botamos um personagem que depois a gente promete algumas surpresas.

Sempre teve esse olhar voltado para o crescimento e educação da tua filha ou a profissão te afastou dela?
Eu nunca me afastei, sempre fui muito ligado. Mas teve uma vez que eu fui fazer um filme em Juazeiro, na Bahia, e fiquei 40 dias longe da minha filha. Ela tinha 2 anos e perguntou para a minha mulher se eu não ia voltar nunca mais para casa. A gente era muito sem grana. Mandei ela vender a televisão do nosso quarto, comprar as passagens para ir a Juazeiro e ficar uns dias lá comio. Só que minha filha ficou lá cinco dias, um lugar quente pra caramba e só tinha carne de bode para comer. Ela passou muito mal e teve que voltar. Era um dilema e eu sentia um pouco de culpa, mas eu sempre estive muito perto e presente.