Trilha sugerida:

 

 

Querida amorinha,

Após o lançamento do livro de uma amiga, papai bebia com uns amigos em um boteco. (Era minha vez de sair no revezamento com a mamãe de “quem sai – quem fica com a pequena”.) Lamentava um dia difícil, quando um chapa interrompeu e mandou meio do nada:

“Como é essa coisa de ser pai?”

Você sabe, minha pessoinha, papai adora esse tema. Mas fui pego de surpresa. E é uma pergunta que nunca sei direito como responder. Já deveria ter formulado alguma frase de efeito que resolvesse, mas naquele momento, com umas brejas na cabeça, comecei inflado:

“Ah, bicho, é uma coisa única mesmo. Dessas sem comparação com nada. Nunca tinha experimentado uma parada tão intensa, sabe?”

Até aqui, papai estava apenas ganhando tempo.

“Quer dizer, todo mundo fala um monte de coisas a respeito. E são todas verdades. Mas até você viver aquilo…assim, não quero soar como o iluminado, o diferentão, nem nada disso. Todo mundo tem filho por aí e tal. Aliás, qualquer imbecil pode fazer filho, né? E eu fico com medo de parecer essas pessoas que ficam falando o quão mágica é a coisa e não são lá muito sinceras. Devo dizer, é a parada mais treta do mundo. Tipo, é trabalho o tempo todo. Mesmo. Eu tô aqui com vocês agora, mas tô noiado se ela tá dormindo bem, se já acordou muitas vezes, se devo voltar pra casa, se já tá muito tarde, se amanhã vou estar inteiro e tudo isso. Ao mesmo tempo, eu tô aqui falando dela e tô com saudade. Vontade de que ela estivesse aqui. Claro, é uma vontade bêbada e sem sentido. Objetivamente, se ela estivesse aqui nesse boteco barulhento, seria um inferno. O que quero dizer é que amo a companhia dela. Ela é realmente uma coisinha muito divertida. Mas é isso, é muito treta. Você deixa de fazer tudo que ama. Por exemplo, rolou o Oscar. Eu, desde pivete, me amarro no Oscar. Só que dessa vez eu não tinha visto absolutamente nenhum filme de categoria alguma. Nenhunzinho. Tipo, eu até fui lá com ela assistir “O Menino e o Mundo”. Mas era uma sessão a céu aberto, ela não parou quieta um segundo e eu não vi uma cena do filme. Brincamos a valer. Mas filme que é bom, nada. E aí, mesmo assim, cê quer ver a cerimônia,  o discurso do Chris Rock, a história do boicote e tudo o mais. Só que cê dorme nos primeiros vinte minutos do red carpet, saca? É isso. Ser pai é acordar e descobrir que a estrela da noite do Oscar foi a Glória Pires e não ter a mais puta ideia do motivo.”

Papai se empolga.

“Na real, o que mais pega é que você deixa de ser sua prioridade. E isso é a parada mais difícil que um ser humano pode vivenciar, acho. Deixar de ser a coisa mais importante pra si mesmo. É uma mudança de perspectiva brutal. Depois de 27 anos achando que eu era o mais importante na minha existência, de repente, não sou mais, sabe?”

Resolvo concluir, já monopolizei a mesa muito tempo e acho melhor encerrar por cima.

“Então, basicamente é a parada mais difícil e desgastante do mundo. Por outro lado, é a melhor coisa do mundo também. Ontem mesmo, eu tava tretando com a minha companheira. Porque é isso, pais brigam a valer. É foda. E a gente tava lá tretando por alguma coisa, nem lembro o que. E a pequena foi lá, correndo até mim, me abraçou e me deu um beijinho no rosto. Depois saiu correndo em direção a mãe e fez o mesmo. Na hora, a treta perdeu o sentido, sabe? Acho que esse episódio resume bem a coisa toda.”

Papai sempre usa essa história, minha pacifistinha. É infalível, meu amor. Ganho todo mundo com essa sempre. Dessa vez, porém, ouço, vindo da moça – que não conheço – sentada ao meu lado um “Afff.” Meio sem graça, pois acho que não devia ter ouvido a bufada, começo:

-Oi?

-Não. Nada, não.

-Não, pode falar.

-Ah, cara, que papinho. Cê consegue ser menos clichê, por favor? Esse blá blá blá de ser pai. Sempre essa história. Essa dicotomia clichê: “É difícil, mas vale a pena. Ela chora, mas sorri. Ela se caga toda, mas é fofa. Eu não durmo mas quando ela pega na minha mão, tudo vale a pena” Nossa, que tédio!

-Ué, mas é meio assim mesmo. Desculpa não ter algo original pra falar. Mas de fato é isso pra mim. Difícil, mas gratificante. Sabe, o Louis C. K. em um stand up fala que a merda é que ele ama as filhas dele. Ele fica lá no show dele zuando a valer a coisa toda, metendo o pau no comportamento egoísta das filhas e tudo o mais, e diz que a maldição é que ele ama as meninas. É meio isso mesmo, sabe? O amor é sempre muito maior que as tretas todas.

-Ahh, sempre o papinho do amor. Ficar apelando pro amor é fácil, né?

-Mas, cara, sem o amor não vale a pena mesmo. Aliás, o que vale a pena sem amor? O que na vida inteira faz sentido sem amor? Nada, cara. Tira o amor da equação e o que sobra?

Aqui papai tem certeza, lacrei. Game over. O papo do amor sensibilizou geral. Não tem mais conversa. Então, a mina dá um gole na breja, e olha pros outros caras, parece refletir um pouco e diz:

-Puta merda, quem chamou o Padre Marcelo Rossi pra beber com a gente?!

…..

Pois é, pequenina, não tem essa de “como é ser pai”. Isso muda o tempo todo. E cada experiência é uma. Aparentemente, no meu caso, ser pai, às vezes, é soar como o Padre Marcelo Rossi pregando sobre o amor em um boteco sujo.

Amor, papai.

03.03.16