– Quero besteira da quitanda, papai!

Eu gosto muito, muito, muito de besteira da quitanda, você diz.

andré ilustra bailarina

Arte: André Bonani

Tento fugir, desconversar, mas você está decidida e viciada na tal besteira: um doce horrível de marzipã e, suspeito, cheio de corante. Uma droga que você encontrou entre as mil cores de frutas disponíveis na quitanda. Como uma ratinha, farejou logo o bendito doce moldado em forma de bichinhos simpáticos. O vendedor notou seu encanto e te presenteou. Não tive como negar. E foi assim que você se viciou.

Igualzinho minha mãe alertava sobre os traficantes na porta da escola. Segundo ela, a primeira “dose de droga” seria de graça pra viciar. ( Até tentei, mas nunca achei essas drogas de graça no colégio. Já no caso do marzipã, o conselho foi certeiro)

Mesmo contra minha vontade, sigo para quitanda e tento me impor:

-Só vamos se você comer toda a verdura, salada e frutas!

Você concorda e eu finjo acreditar.

 

Trilha sugerida:

 

Na quitanda, enquanto espero o suco (que você não irá tomar) ser feito, você dança e pula sem parar. Eu ouço a conversa de três senhores bebericando café ao meu lado. Um baixinho, barrigudo e careca monopoliza a atenção de maneira bastante inflamada:

-Vou dizer pra vocês, não tem mais jeito! Não tem! Esse país está na merda. Aí, você pensa em soluções e já vem o povo falar em democracia. Nunca deveria ter existido democracia nesse paizinho de merda!

Ele cospe um tantinho enquanto esbraveja:

-Democracia é coisa de gente civilizada. Isso aqui não é civilizado. É ou não é? Tem que prender todo mundo mesmo. Fazer a faxina, não deixar um só livre. Não existe isso de político honesto tem que tirar todo mundo. É tudo bandido mesmo. Todos os partidos, não tem conversa. Não sobra um.  Agora, esse país não vai se arrumar nem nos próximos cem anos. O estrago foi muito, muito grande. Escuta o que tô dizendo, essa papo de democracia, essa conversa pra boi dormir, será nossa desgraça. Ou você acha que esse povinho de merda sabe votar? Tem que votar coisíssima nenhuma. País de merda não tem que ter voto porra nenhuma!

Você dança, rebola, rodopia, pula em um pé só, faz graça e ri bastante. Não há música, apenas o senhor que detesta democracia gritando. Você faz seu lindo ballet sob os gritos. Tão feliz que quase sinto vergonha.

Então, os três senhores te notam.  O baixinho finalmente silencia. Talvez comovido com tua dança ou talvez apenas terminou o discurso. Eu me dou conta de que enquanto pudermos dançar assim, mesmo sem música, e enquanto eu puder fazer metáforas e reflexões tão ingênuas e pobres quanto esta, estaremos bem.

É tolo, eu sei, minha bailarininha. Mas faz bem me apegar as suas pequenas pílulas de poesia cotidiana.

E talvez o lance seja maneirar com as besteiras da quitanda.

Amor,

Papai.