Trilha sugerida:

36,7…aí,saco. 36,8… não, não. 36,9… apita logo, meu Deus! 37,0… nãaaaao! Pronto, entramos no estado febril. E segue subindo, termômetro cretino.

-Será que aquela banana não tava meio passada?

-Não, eu comi também. Acho que foi aquela areia no parquinho. Tinha um gato suspeito ali do lado, toda pinta de doença.

-Putz, ontem mijei e não lavei a mão.

-O Pedrinho tava com o nariz escorrendo, lembra?

-Pô, mas o Pedrinho é tão fofo.

-Eu sei, mas não é uma coisa de caráter, né? Ele tava todo remelento, tadinho. E acho que trocaram mamadeiras.

-Merda de Pedrinho.

-Na escolinha dele tá todo mundo doente. E aí, cada criança recebeu um diagnóstico diferente dos respectivos pediatras. Uma merda, nunca dá pra saber.

-Na dúvida, virose.

O reino encantado das viroses, das febres, dos termômetros e dos remédios é algo absolutamente detestável, querida dodóizinha. Nunca pensei que equilibrar a temperatura de um ser humano fosse algo tão complexo.
Dá remédio. Não pode descer demais. Dá banho. Coloca cobertor. Não pode subir muito também. Ela tá quente? Não vou acordar pra medir. Mas e se estiver muito quente? Deu remédio? Cuspiu tudo. É pior do que dar remédio pra cachorro. Ela só cospe. Dá de novo. Mas e se dermos demais?

Antigamente, enferminha, papai tinha no termômetro um aliado para cabular aula. A torcida era inversa, cada grau pra cima, maior a chance de fugir de uma prova. Agora, cada numerozinho pra cima representa uma noite mal dormida e todo o resto em suspensão.

Na manhã seguinte, falto no trabalho pra cuidar de você. Quando aviso meu chefe até penso, “ah, legal, vamos descansar, ver desenhos, comer coisas gostosas. Vai ser fera!”. O meu referencial ainda era o das manhãs de enfermidades simuladas ou forçadas pra fugir da sala de aula. Erro rude.

Minha febrinha linda, não há nada de fera em um dia inteiro de choro, medir febre e a noia de não saber o que está acontecendo. A maldita noia, isso é o pior. A falta de diagnóstico preciso vira terreno fértil para as piores noias possíveis. Doentinha assim, você até dorme bastante durante o dia. Mas papai aqui, em vez de finalmente relaxar, vela seu sono com medo de que a qualquer momento você pare de respirar, sua temperatura desabe ou exploda, ou sei lá, tenha um piripaque irreversível. E no noticiário só da Zika vírus. Haja noia. Fico com pena da vovó (minha mãe) quando inventei de andar de skate, fazer mochilão, comer dogão/coxinha/bolovo suspeito, sair de balada, etc. Tudo é campo pra noia atuar na cabeça dos pais.

Em minha defesa, pessoinha, é a primeira vez que faço isso. Vou noiar ainda muito mais. E, talvez, isso até salve nossas vidas, vai saber. Mas na maior parte do tempo será apenas um saco, eu sei.
Ó lá a noia me cutucando novamente. Vou lá te acordar e medir novamente sua febre. Desculpa, pequeninha, mas tenho que fazer vai que, opa, 36.5! É Tetra! Toma essa, febre!

Pronto. Uma noia a menos. Até a próxima.

Amor,

Papai 10.03.16