ilustra andré mágico ácido
Arte André Bonani

“Vamos seguir a linha verde. Onde será que vai dar? Não pode pisar na amarela, hein? A linha roxa vai pra direita e a vermelha pra esquerda. Vamos até o fim pela verde. O que será que tem no final desse arco-íris, minha pequena?”

Assim foi nossa primeira visita ao Poupatempo para resolver pendências burocráticas. Fomos seguindo a linha de cor verde colada ao chão, a direção indicada para resolver problemas de RGs, CPFs e afins. Tentei fazer da chatice uma grande aventura. Você embarcou na maior parte do tempo (óbvia e oportunamente, reservou o choro apenas para o momento exato de tirar a foto).

Trilha sugerida:

Como no filme “A Vida é Bela”, do Roberto Benigni, tento camuflar o cinza da realidade com saídas lúdicas e bem humoradas. Felizmente, no lugar de tanques e bombas, a burocracia do dia a dia.

No supermercado, o carrinho vira nosso foguete. Na ida ao banco somos obrigados a passar por um carrossel muito louco que gira, gira sem parar, uuhuul. A lombada do trânsito é montanha russa, levanta os braços e ueeeeeba! Não dirijo lá muito bem, a mamãe pode atestar, mas minhas barbeiragens viram graça e te fazem sorrir. Tática antiga essa, devo confessar. Pegar os defeitos e tentar camuflá-los como charme. O posto de gasolina ganhou nossa trilha sonora, “da gasolina, da margarina, da Carolina, baby….” No elevador, para desespero dos vizinhos, não sobra botão apagado. Tomar banho é provocar enchente no banheiro e mergulhar o Skafinho. Colocar roupa é uma desculpa para um desfile de moda.
E assim, tento transformar em algo mais lúdico nossa rotina, nossa existência.

Pensar nisso me lembra quando um amigo (veja bem, amorinha, um amigo e não eu) sob o efeito de alucinógenos brincava feito um maluco na praia. Nós, os sóbrios, observávamos o amiguinho ensandecido e comentávamos como ele estava feliz feito uma criança. Ele rolava na areia, mergulhava no mar, mergulhava na areia, rolava no mar. Sempre andando de lado feito caranguejo. Assim, diante de olhares mais críticos, a cena poderia ser interpretada como patética. Mas nós olhávamos com doçura aquele quase adulto brincando feito uma pequena de sua idade.

E fazendo uma reflexão meio viajandona, ser pai é um pouco parecido com isso: uma trip de ácido. (Quer dizer, amorinha, não que eu saiba como essas são. Estou me baseando no que amiguinhos dizem por aí, viu?).

Uma vez, outro amiguinho (nunca o papai) definiu o ácido como uma droga muito séria. Segundo ele, o caminho para não cair em uma badtrip era achar o equilíbrio: Saber a hora de assumir o controle, ser forte e também saber quando se entregar por completo na loucura. Mais ou menos como ser pai.
Sem falar que, em ambos os casos, tudo fica bem mais colorido. Exatamente como as linhas do arco-íris do Poupatempo, dizem.

Amor,
papai.

01.12.16

Ps: Sempre lembrando que as crônicas são todas ficção. Sempre brincadeiras ficcionais sem qualquer compromisso com a realidade.
Ps2: A crônica não defende o uso de drogas. Não use drogas se não quiser usar (ou se não puder). Na verdade, a crônica não está defendendo absolutamente nada. Uma vez mais, apenas uma brincadeira.
Ps3: A crônica foi escrita há duas semanas.