Deixamos o carro em casa, afinal somos boêmios conscientes. Fomos de uber e voltamos de táxi. Sua primeira “balada”. Já no uber, você deixou claro que não estava pra brincadeira: abriu a janela e gritou para as pessoas na rua, jogou no chão as balinhas que o motorista gentilmente ofereceu e ainda ouviu um “Palavra Cantada” no talo. A Lo-ka!

Desceu do carro confiante, inconsequente, determinada. Quis atravessar a rua sem nem olhar pros lados. Eu te segurei como pude. No elevador, apertou todos os botões que alcançou. Zuona!

Trilha sonora:

No hall, ignorou campainha, batidas na porta ou pedidos de licença. Como se estivesse em casa, entrou baphônica e divando. Não se intimidou com o fato de não conhecer nenhum daqueles rostos que te encaravam. Passou batido pela aniversariante e se jogou com tudo nos quitutes na mesa da sala.

No centro da pista de dança improvisada, lançou tendência. Todos imitaram seus passos. Até quando dava cambalhotas, um ou outro bêbado, sem sucesso, tentava copiar. Em minutos, já rolava pelo tapete da sala. Até o chão!

Trocou de look duas vezes depois de se esbaldar no brigadeiro e se sujar toda. Sem pudor algum, tirou a roupa em cima do sofá em um impulso libertário, contra a caretice. Musa lacradora!

Comeu tudo que tinha vontade. Não esperou nem o parabéns e atacou o bolo como se não houvesse amanhã. Beijinho no ombro pro recalque! Com seu jeitinho rock-n-roll-meio-nonsense-bossa-nova-qualquer-nota, conquistou a todos, minha femme fatalezinha. E enquanto tentavam ganhar sua atenção, você toda trabalhada na indiferença brincava com o cachorrinho da dona da festa.

No fim da noite, alta madrugada, lá pelas 21h30, chorou para ir embora. Capotou no táxi e nem viu quando ou como chegamos em casa.

Dizem, “filha de peixe, peixinha é”. Realmente, durante muitos anos, segui rotina bastante similar. Com diferenças sutis. Por exemplo, enquanto você causava na balada, todos eram só amor, minha boeminha. Já papai tinha por hábito provocar bastante vergonha alheia por aí.
E têm as manhãs seguintes, essas bem opostas: eu acordava sofrendo mil remorsos, dores físicas, morais e existenciais e prometia “nunca mais!”. Você levanta terrivelmente disposta a repetir tudo. Terrivelmente, às 07hs da manhã.

Amor boêmio, lacrador e baphônico,

Papai.
19.05.16