ilustra corvo andré valendoooo

Arte: André Bonani

-Papai, não quero crescer. Como cresce?

-Ah, cê não precisa fazer nada. Só ficar parada e crescer. Tipo o papai, eu não tô fazendo nada e vou crescer mais um ano agora.

-Não.

-Vou sim. Farei 31 anos.

-Não quero, papai. Você gosta de crescer? Como é ser grande?

-Bem…

trilha sugerida:

 

Parece que ter 30 anos no Brasil significa algo como ser jogado involuntariamente em um niilismo cretino. É procurar alienação como única maneira de sobreviver. É saber que seu país é governado por…(é ter receio até de completar essa frase com sinceridade). É torcer por um mundo melhor e não fazer nada a respeito. É não ter tempo pra isso. Nem pra nada. Nem pra sentir e ainda assim sentir. É querer uma pausa pra fumar um cigarro, mas ter parado de fumar, afinal, né? Não somos mais tão jovens e essa merda mata.É não ter ideia pra onde ir, mas não poder parar (é, como em uma letra do Humberto Gessinger mesmo).

É não saber quais lutas valem a pena abraçar e quais não.  É se arrepender a todo instante e não poder fazer nada além de lamentar. É perceber que o fato de você sentir muito não muda nada. É procurar emprego ou estar miseravelmente infeliz no que tem. É não pensar em crise e se agarrar às migalhas. É fazer muitas contas e não ter dinheiro. É pensar o tempo inteiro sobre isso, dinheiro.

É sentir costas e joelhos doerem. É beber mais do que seu corpo aconselharia. É ter ressacas de três dias ou mais. É ser objetivamente funcional quando dá, mas na maioria das vezes um completo desastre.É acumular e carregar fracassos. É estar completamente sozinho.É ter amigos na mesma merda e precisar deles para juntos rirem da desgraça. É ser cínico, arrogante, sarcástico, tudo por insegurança. É ter cada vez menos lapsos de sinceridade.

É ser nostálgico. É abandonar certezas, utopias e sonhos. É ter plena noção de sua mediocridade. É saber que você não é especial e que o mundo não te deve nada. Pelo contrário, ele vai te fuder. É não ser astronauta, jogador de futebol ou rockstar. É ser menos romântico. É ser pior em incontáveis sentidos.

É escrever um textinho chinfrim sobre “como é ter 30 anos no Brasil”, mesmo sabendo que isso é uma generalização burra e absurda. É ter clara consciência de que isso parte de uma realidade muito, mas muito, específica. Ainda assim, seguir escrevendo como se o mundo fosse o próprio umbigo. É também saber que nenhuma palavra escrita aqui – ou em qualquer outro lugar – é definitiva.

 

Não te digo nada disso, obviamente.

Não minto pra você, amorinha. Mas diante dos seus olhinhos esperançosos e mágicos, omito esse balaio de choradeira e lamentações:

-É legal, pequena. Dá pra ler a historinha que quiser. Dá até pra escrever suas próprias histórias. Você vai gostar.

Você pensa um pouco e responde:

-Eu vou te dar um presente, papai. Pro vovô vou dar um quadro. E pra você vou dar uma flor amarela. Pra ela crescer, crescer bastante, e você não ficar triste. Só um pouquinho. Às vezes.

Crescer pode ser uma merda, mas você sempre me ensinando:

te amo mais que qualquer merda.

Papai,

09.03.17